Silvestre entendeu que o abrigo podia matá-los tão depressa quanto o frio lá fora.
Elena permanecia caída junto à parede, a cabeça tombada para o lado, enquanto o recém-nascido se agitava contra o peito dela e o fogo do velho fogão diminuía a cada minuto.
A solução mais óbvia seria sair em busca de lenha.

Também poderia ser a pior.
Se ele atravessasse aquela porta, mesmo por pouco tempo, Elena ficaria sozinha, enfraquecida pelo parto e pelo sangramento, com um bebê que havia acabado de começar a respirar direito.
Se ficasse, o fogo morreria.
Silvestre olhou para as tábuas apodrecidas sob os próprios joelhos.
Então tomou uma decisão.
Enfiou os dedos numa das frestas do piso e puxou com força.
A madeira resistiu primeiro, presa por pregos antigos e ferrugem, mas parte da tábua já estava comida pela umidade. Silvestre forçou outra vez até arrancar um pedaço comprido.
Ele o quebrou contra a quina do fogão e jogou a primeira parte nas brasas.
O fogo reagiu devagar.
Depois cresceu.
Silvestre arrancou outra tábua.
Outra.
Outra.
Não era madeira boa, e ele sabia que não poderia desmontar o casebre inteiro sem tornar o lugar ainda mais perigoso, mas aquilo comprava minutos.
Naquela noite, minutos eram tudo o que ele precisava arrancar da montanha.
— Elena.
Ele tocou o rosto dela.
Nenhuma resposta.
— Elena, abra os olhos.
O bebê chorou mais alto.
Silvestre ajeitou a manta ao redor dos dois e chamou novamente.
Dessa vez, Elena franziu a testa.
Foi um movimento pequeno, quase nada, mas suficiente.
— Isso. Fique comigo.
Os olhos dela se abriram apenas pela metade.
— Tomás?
Silvestre sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
— Ainda sou eu.
Elena tentou virar a cabeça.
— Meu filho?
— Está respirando. E está fazendo barulho suficiente para irritar a montanha inteira.
Ela soltou um som que poderia ter sido uma risada se tivesse forças.
Silvestre colocou a mão dela sobre a manta que envolvia o menino.
Os dedos de Elena se moveram devagar até encontrarem a cabeça minúscula.
Ela respirou fundo.
— Ele está quente?
— Por enquanto.
Silvestre não mentiu.
O fogo podia crescer durante alguns minutos, mas o casebre continuava perdendo calor pelas paredes e pelo teto. As rajadas faziam a porta estremecer. Neve fina entrava por uma fresta perto do batente e derretia quase imediatamente sobre o chão próximo ao fogão.
Elena fechou os olhos outra vez.
— Não.
A voz de Silvestre endureceu.
— Olhe para mim.
— Estou olhando.
— Não está.
Ela abriu os olhos com esforço.
— Você é muito mandão para alguém que conheci hoje.
— Continue reclamando de mim.
— Por quê?
— Porque enquanto estiver reclamando, vou saber que ainda está aqui.
Elena respirou devagar.
Por algum tempo, foi isso que fizeram.
Silvestre alimentava o fogão com pedaços do próprio piso, verificava o bebê, apertava mais as mantas ao redor deles e obrigava Elena a responder perguntas simples.
Como era a casa onde ela havia crescido.
O que a mãe dela costumava costurar.
Se Tomás realmente tinha batido na mesa quando Jacinta insultara o bebê.
A essa pergunta, Elena abriu os olhos um pouco mais.
— Bateu tão forte que derrubou uma xícara.
— Ele costuma fazer isso?
— Bater em mesas?
— Defender você.
Elena demorou a responder.
— Sim.
Silvestre colocou mais um pedaço de madeira no fogo.
— Então continue esperando que ele faça isso de novo.
Elena apertou a manta.
— Você acha que ele está morto.
Silvestre ficou imóvel por um instante.
Ela havia percebido.
Claro que havia.
Desde que entrara no casebre, ele evitava dizer em voz alta o que qualquer homem acostumado àquelas montanhas saberia: três dias desaparecido em meio a uma tempestade eram tempo demais.
Mas esperança e mentira não eram a mesma coisa.
— Eu acho que ele entrou numa situação ruim — respondeu Silvestre.
— Não foi isso que perguntei.
— Eu sei.
Elena observou o fogo.
— Ele disse que voltaria antes de escurecer.
Silvestre não respondeu.
— Tomás sempre volta — continuou ela. — Mesmo quando demora.
— Então vamos dar a ele alguma coisa para encontrar quando voltar.
Ela olhou para o bebê.
O menino tornou a chorar.
Dessa vez o som saiu mais firme.
Mais vivo.
Elena puxou a manta para perto do rosto e chorou em silêncio, não de desespero, mas de alívio.
Silvestre desviou os olhos para o fogão.
A lenha improvisada estava acabando outra vez.
Ele se levantou e avaliou o piso.
Não podia retirar madeira ao redor de Elena. Nem perto do fogão. Nem junto à porta.
Escolheu o canto oposto, onde as tábuas pareciam secas o suficiente e não sustentavam o peso dos três.
Abaixou-se e puxou outra.
Foi quando ouviu um ruído do lado de fora.
Silvestre congelou.
Elena percebeu imediatamente.
— O que foi?
Ele levantou uma mão pedindo silêncio.
O vento continuava batendo contra as paredes.
Nada mais.
Silvestre permaneceu parado por alguns segundos.
Então ouviu de novo.
Não era o vento.
Era alguma coisa raspando a madeira perto da porta.
Silvestre olhou para Elena.
Ela também tinha ouvido.
— Tomás?
— Não sei.
Ele pegou o rifle do canto, mas não o apontou para a porta.
Apenas ficou ao lado dela, atento.
O som veio pela terceira vez.
Uma pancada.
Fraca.
Depois outra.
Silvestre se aproximou.
— Quem está aí?
Por alguns segundos, houve apenas o uivo da tempestade.
Então uma voz masculina respondeu do outro lado.
— Elena?
O rosto dela mudou.
— Tomás!
Silvestre abriu a porta.
Uma massa de vento e neve invadiu o casebre.
Um homem quase caiu para dentro.
Tinha o rosto queimado pelo frio, a barba coberta de cristais de gelo e caminhava com dificuldade, apoiando o peso de um lado do corpo contra o batente.
Elena começou a chorar.
— Tomás.
Ele ergueu a cabeça.
Por um instante, pareceu não compreender o que estava vendo.
A esposa estava caída sob mantas junto ao fogão.
Havia um estranho barbudo segurando um rifle.
E um choro de bebê enchia o pequeno abrigo.
Tomás olhou primeiro para Silvestre.
Depois para Elena.
Depois para o volume minúsculo junto ao peito dela.
O rifle de Silvestre imediatamente voltou ao chão.
— Entre — ordenou ele. — Ou vai matar todo mundo de frio.
Tomás fechou a porta e atravessou o casebre mancando.
Quando chegou perto de Elena, caiu de joelhos.
— Eu tentei voltar.
Ela tocou o rosto dele como se precisasse confirmar que era real.
— Três dias.
— Eu sei.
— Três dias, Tomás.
A voz dela não tinha força para raiva.
Isso pareceu machucá-lo ainda mais.
— Eu me perdi quando o vento fechou o caminho. Tentei voltar pelo mesmo trecho, mas já não conseguia enxergar as marcas. Passei tempo demais procurando o caminho de volta.
Elena fechou os olhos.
— Achei que você tivesse morrido.
Tomás encostou a testa na mão dela.
— Eu também achei.
Silvestre observava os dois sem interromper.
Tomás finalmente percebeu o bebê outra vez.
O medo desapareceu do rosto dele e deu lugar a alguma coisa que Silvestre conhecia bem, embora raramente visse em homens adultos: espanto puro.
— É ele?
Elena soltou um pequeno riso cansado.
— Não, encontrei outro bebê na tempestade enquanto esperava você.
Tomás riu e chorou ao mesmo tempo.
Então estendeu as mãos.
Parou antes de tocar na criança.
— Posso?
Elena olhou para Silvestre.
Não porque precisasse de autorização.
Talvez porque, nas últimas horas, aquele homem tivesse se tornado a única referência entre ela e o caos.
Silvestre fez um movimento curto com a cabeça.
— Apoie bem.
Tomás recebeu o filho com tanto cuidado que parecia estar segurando algo feito de vidro fino.
O bebê protestou imediatamente.
— Ele está bravo comigo — disse Tomás.
— Chegou atrasado — murmurou Elena.
Dessa vez até Silvestre sorriu.
Mas o momento durou pouco.
Ele olhou novamente para Elena e percebeu que a cor do rosto dela continuava ruim.
— Tomás.
O marido ergueu os olhos.
Silvestre apontou para o bebê.
— Continue mantendo ele aquecido.
Tomás entendeu pela voz que alguma coisa ainda estava errada.
— O que aconteceu com ela?
— Perdeu muito sangue.
Tomás empalideceu.
— Elena?
— Não faça ela gastar forças acalmando você — disse Silvestre. — Ajude.
Aquilo funcionou.
Tomás engoliu o medo e se concentrou.
Silvestre tornou a alimentar o fogão.
Durante o restante da madrugada, os dois homens trabalharam sem grandes conversas.
Tomás ficou perto de Elena e do bebê, mantendo as mantas fechadas ao redor deles e falando com a esposa sempre que ela começava a se afastar daquele estado de vigília frágil.
Silvestre cuidava do fogo e observava a tempestade pelas frestas.
A cada intervalo, Elena perguntava a Tomás alguma coisa apenas para ouvi-lo responder.
Onde estivera.
Se ainda tinha todos os dedos.
Se havia encontrado a peça da carroça.
A última pergunta fez Tomás olhar para o chão.
— Não.
Elena começou a rir.
Era uma risada fraca, dolorida, quase absurda.
— Então você quase morreu por nada.
Tomás abaixou a cabeça.
— Parece que sim.
— Idiota.
— Eu sei.
Silvestre arrancou mais um pedaço de tábua.
— Continuem discutindo. Está funcionando.
O céu começou a clarear lentamente por trás das paredes mal vedadas.
Não houve um instante exato em que a tempestade terminou.
Primeiro, as rajadas ficaram mais espaçadas.
Depois o telhado deixou de estremecer.
Por fim, os três perceberam que já conseguiam ouvir o fogo sem que o vento engolisse todos os outros sons.
Silvestre abriu a porta apenas o suficiente para olhar para fora.
A neve cobria tudo.
A montanha parecia diferente da noite anterior, como se tivesse apagado caminhos, pedras e rastros para começar de novo.
Mas a visibilidade havia melhorado.
Ele fechou a porta.
— Ainda não podemos sair.
Tomás assentiu.
Elena não protestou.
Essa foi a primeira coisa que preocupou Silvestre.
A segunda foi perceber que ela havia adormecido novamente.
Ele se abaixou imediatamente.
— Elena.
Tomás se inclinou.
— Elena.
Ela não respondeu.
Tomás tentou tocar o ombro dela.
Silvestre segurou seu pulso.
— Chame sem sacudir.
— Elena, sou eu.
Nada.
O bebê fez um som curto nos braços do pai.
Tomás aproximou-se mais.
— Você esperou. Eu voltei. Agora abra os olhos e brigue comigo.
Silvestre ficou olhando o rosto dela.
Então Elena respirou fundo.
As pálpebras se moveram.
— Estou cansada de brigar com você.
Tomás soltou o ar de uma vez e abaixou a cabeça.
— Pode brigar amanhã.
— Amanhã parece bom.
Silvestre avaliou Elena outra vez.
Ela continuava muito fraca, mas o sangramento havia diminuído em relação às horas anteriores.
Não era uma garantia.
Era apenas a primeira mudança naquela noite que não apontava para algo pior.
Ele decidiu esperar mais.
Tomás não discutiu.
Quando a luz aumentou e o vento se tornou suportável, Silvestre saiu por poucos minutos para verificar o entorno.
Retornou com neve nos ombros e uma expressão séria.
— Podemos tentar descer quando ela conseguir ficar consciente por mais tempo.
— Eu consigo — disse Elena imediatamente.
Silvestre olhou para ela.
— Você não consegue nem terminar uma frase sem fechar os olhos.
— Acabei de terminar.
Tomás quase sorriu.
Silvestre não.
— Mais tarde.
Ela teve energia suficiente para parecer ofendida.
Era um bom sinal.
As horas seguintes passaram mais lentamente.
O bebê mamou pouco, dormiu, chorou novamente e se acomodou contra Elena.
Tomás não parava de olhar para o filho.
De tempos em tempos, parecia lembrar que Silvestre estava ali e lançava ao homem uma expressão estranha, feita de gratidão e desconforto.
Por fim, perguntou:
— Como você encontrou ela?
Silvestre estava junto ao fogão.
— Ouvi.
— Ouviu o quê?
— Sua esposa.
Elena abriu os olhos.
— Acho que metade da serra me ouviu.
Silvestre continuou:
— Eu estava seguindo um cervo. Achei que tivesse algum animal ferido por perto.
Tomás olhou para o rifle no canto.
Depois para a esposa.
Elena percebeu.
— Eu também achei que ele fosse me matar quando entrou.
Tomás encarou Silvestre.
Silvestre deu de ombros.
— Ela disse para eu não chegar perto.
— E você chegou mesmo assim? — perguntou Tomás.
— Seu filho estava nascendo.
Elena soltou outra risada cansada.
— Ele é péssimo obedecendo mulheres em trabalho de parto.
— Ainda bem — respondeu Tomás.
Aquelas duas palavras mudaram algo entre os homens.
Não os tornaram amigos.
Não apagaram os três dias de ausência de Tomás nem transformaram Silvestre em parte da família.
Mas eliminaram a última desconfiança que ainda permanecia no casebre.
Tomás olhou para o rifle outra vez.
— Obrigado.
Silvestre mexeu nas brasas.
— Agradeça quando os dois estiverem fora desta montanha.
Perto do meio do dia, Elena conseguiu permanecer acordada por mais tempo.
Ainda estava fraca demais para caminhar sozinha.
Silvestre e Tomás organizaram a saída com o que já tinham, protegendo primeiro o bebê e evitando expor Elena ao vento mais do que o necessário.
Não havia pressa bonita ou heroica naquela partida.
Havia cuidado.
Passos curtos.
Paradas.
Atenção constante ao frio.
Tomás queria fazer mais do que seu corpo permitia, mas a volta pela tempestade havia cobrado seu preço. Ele mancava e, em alguns momentos, precisava apoiar a mão numa árvore ou numa pedra antes de seguir.
Silvestre não comentou.
Apenas assumiu a maior parte do peso quando foi necessário.
Elena reclamou duas vezes.
Silvestre considerou isso excelente.
O recém-nascido, envolvido contra o corpo da mãe sempre que possível, parecia ter encontrado força suficiente para protestar contra cada mudança de posição.
Tomás sorria toda vez que o ouvia.
Horas antes, aquele mesmo som não existia.
Silvestre não esquecia disso.
Nem Elena.
Em determinado ponto do caminho, ela pediu que parassem.
Tomás ficou assustado.
— Está pior?
— Não.
Ela olhou para Silvestre.
— Quero perguntar uma coisa.
— Pergunte.
— Por que você ficou?
Silvestre franziu a testa.
— Porque não dava para deixar você lá.
— Você poderia ter ido embora quando o bebê nasceu.
Ele demorou um instante.
— Ele não respirava.
Elena apertou o filho contra si.
— Depois ele respirou.
— Você começou a piorar.
— Depois Tomás voltou.
Silvestre olhou para o caminho à frente.
— Você ainda não tinha saído da montanha.
Elena o estudou por alguns segundos.
Talvez esperasse uma explicação maior.
Não recebeu.
Silvestre não era um homem de discursos.
Ficara porque, a cada momento em que poderia ter considerado o trabalho terminado, ainda havia alguém precisando que ele não saísse pela porta.
Era simples assim.
Tomás compreendeu antes de Elena dizer qualquer outra coisa.
— Então vamos continuar.
Seguiram adiante.
Quando finalmente alcançaram um trecho mais protegido, onde a caminhada se tornou menos difícil, Silvestre permitiu que diminuíssem o ritmo.
Elena estava exausta, mas consciente.
O bebê dormia.
Tomás caminhava ao lado dela.
Pela primeira vez desde que a tempestade os separara, marido e mulher estavam seguindo na mesma direção.
Nenhum dos dois falou sobre Jacinta por algum tempo.
Foi Elena quem tocou no assunto.
— Sua mãe diria que tudo isso prova que fizemos uma loucura.
Tomás continuou andando.
— Minha mãe sempre encontra uma maneira de provar aquilo em que já decidiu acreditar.
— E você?
Tomás olhou para o filho.
— Eu acho que quase perdi vocês tentando construir uma vida longe dela.
Elena ficou em silêncio.
— Está arrependido?
Tomás parou.
Silvestre continuou alguns passos antes de perceber e olhar para trás.
Tomás encarava Elena.
— De escolher você? Não.
Ele respirou fundo.
— De achar que eu precisava resolver tudo sozinho? Sim.
Elena não respondeu de imediato.
Então estendeu a mão.
Tomás segurou.
Não havia fortuna esperando por eles naquele caminho.
A carroça continuava quebrada.
Eles ainda tinham pouco dinheiro e um futuro incerto.
Nada daquilo desapareceu porque o bebê nascera ou porque Tomás sobrevivera à tempestade.
Mas a escolha que Jacinta tentara transformar em punição continuava sendo deles.
Dessa vez, os dois pareciam entender melhor o preço.
Silvestre virou-se novamente e seguiu adiante.
O resto do caminho foi lento.
Quando já estavam fora da parte mais castigada pela neve, Tomás perguntou onde Silvestre iria depois.
— Voltar.
— Para o casebre?
— Para as montanhas.
Elena ergueu as sobrancelhas.
— Depois de tudo isso?
— É onde eu moro.
— Você sempre responde como se cada frase custasse dinheiro?
Silvestre olhou para ela.
— Sim.
Elena riu.
Foi a risada mais forte desde o parto.
O bebê se mexeu com o som.
Tomás ajeitou a manta ao redor dos dois.
Silvestre parou quando percebeu que, dali em diante, o casal conseguiria prosseguir sem depender de seus braços a cada passo.
Tomás entendeu.
— Você não vem conosco?
— Não precisam de mim para o resto.
Elena abriu a boca para protestar.
Silvestre levantou uma mão.
— O bebê respira. Você está acordada. Seu marido voltou.
Ele olhou para Tomás.
— E agora ele sabe que não deve entrar sozinho numa tempestade para resolver tudo.
Tomás assentiu, aceitando a provocação.
Elena puxou a manta sobre o filho.
— Então é isso?
Silvestre colocou o rifle no ombro.
O mesmo rifle que, horas antes, fizera Elena tentar se arrastar para longe dele no chão do casebre.
Agora ela não recuou.
— É isso — respondeu ele.
Tomás estendeu a mão.
Silvestre apertou.
Elena olhou para o homem barbudo que havia aparecido quando ela acreditava estar completamente sozinha.
— Silvestre.
Ele esperou.
— Você disse que nunca tinha ajudado uma criança a nascer.
— Disse.
— Agora não pode mais dizer isso.
Ele inclinou a cabeça.
— Pretendo não precisar fazer de novo.
Elena sorriu.
Silvestre se virou e começou a subir pelo mesmo caminho de onde havia vindo.
Não houve despedida longa.
Tomás ficou ao lado da esposa, com uma mão nas costas dela e a outra pronta para ajudar com o bebê.
Elena observou Silvestre até a figura dele ficar menor entre as árvores.
Depois continuou andando.
Muito mais tarde, o que permaneceria mais nítido para ela não seria o som da tempestade nem a dor do parto.
Seria o instante em que esperou pelo choro e ouviu apenas silêncio.
Depois, aquele ruído minúsculo.
Um engasgo.
Um primeiro som.
E a voz de Silvestre dizendo apenas:
— De novo.
Tomás nunca poderia recuperar os três dias em que Elena acreditou tê-lo perdido.
Elena também não poderia fingir que o medo desapareceria apenas porque ele voltara.
Mas o filho estava vivo nos braços dela.
Tomás caminhava ao seu lado.
E o homem que parecera uma ameaça quando abriu a porta havia permanecido até não haver mais nada que pudesse fazer por eles.
No casebre abandonado, o fogão acabou se apagando.
Perto da parede onde Elena havia passado horas com as unhas cravadas no piso, ficaram três espaços vazios entre as tábuas apodrecidas.
A madeira que sustentara sua dor durante o parto terminara de outra forma naquela madrugada.
Tinha virado fogo.