A carroça avançava devagar pela trilha coberta de poeira, levando Sadi para longe de Oak Haven e para uma vida que ela acreditava já estar decidida antes mesmo de começar.
Ela ainda sentia o peso do olhar das pessoas da cidade, daqueles que tinham assistido ao casamento como se estivessem vendo alguém ser entregue em troca de uma dívida.
Para todos eles, Lucien Holt era um homem perigoso que tinha comprado uma esposa com carne suficiente para manter uma comunidade viva durante o inverno.

Mas Sadi percebeu uma coisa durante o caminho.
O homem que todos chamavam de monstro não falou como um dono.
Não deu ordens.
Não tentou tocar nela.
Ele apenas conduziu a carroça pelas montanhas em silêncio, mantendo os olhos na estrada e deixando espaço suficiente para que ela entendesse que podia ficar ali sem ser forçada a nada.
Quando a casa apareceu entre as árvores altas, Sadi esperava encontrar um lugar frio, escuro e tão assustador quanto as histórias contadas pelas mães de Oak Haven.
Encontrou algo diferente.
A casa era simples, feita para suportar o inverno, mas havia sinais de cuidado em cada canto.
A lenha estava organizada perto da entrada.
A mesa estava limpa.
Uma refeição tinha sido preparada antes da chegada dela.
Lucien carregou o baú dela para dentro sem reclamar do peso e colocou o objeto no quarto que seria dela.
Sadi ficou parada observando.
Durante dez anos, ela aprendeu que qualquer favor vinha acompanhado de uma cobrança escondida.
Uma cama limpa geralmente significava mais trabalho.
Uma palavra gentil geralmente significava uma dívida.
Um presente quase sempre vinha com uma condição.
Então, quando Lucien apenas apontou para o quarto e disse que aquele espaço também pertencia a ela, Sadi não soube como responder.
Aquela frase simples parecia mais estranha do que qualquer ameaça.
Porque ela nunca tinha ouvido alguém dizer que algo era dela sem tentar tirar outra coisa em troca.
Na primeira noite nas montanhas, Sadi não conseguiu dormir.
Não por medo do homem ao lado da casa.
Mas porque tudo aquilo não combinava com a história que contaram sobre ele.
Ela caminhou pelos corredores pequenos, tentando entender quem era realmente Lucien Holt.
Foi quando percebeu uma luz fraca vindo da área da forja.
O homem que todos temiam passava horas trabalhando ali, criando ferramentas e consertando objetos para sobreviver naquele lugar isolado.
Sadi se aproximou em silêncio e viu algo que não esperava encontrar.
Perto da bancada de trabalho havia marcas de anos de esforço, objetos antigos e uma pequena lembrança guardada com cuidado.
Não era uma riqueza escondida.
Não era ouro.
Era algo que mostrava uma parte de Lucien que ninguém em Oak Haven conhecia.
A cidade tinha transformado suas cicatrizes em uma história de medo.
Mas aquelas mãos enormes, que carregavam centenas de quilos de carne pela montanha, também tinham sido usadas para proteger, construir e cuidar.
Sadi começou a perceber que talvez o acordo feito pelo prefeito não tivesse criado uma prisão para ela.
Talvez tivesse colocado diante dela o único homem naquela região que não a via como uma mercadoria.
Mas, antes que pudesse descobrir toda a verdade, ela encontrou um detalhe escondido perto da forja que mudaria completamente a forma como enxergava aquele casamento.
Durante anos, Oak Haven acreditou que Lucien tinha descido das montanhas para comprar alguém.
Ninguém perguntou por que um homem com tanta força, tanta comida e tanta distância do mundo escolheria uma troca tão estranha.
Ninguém perguntou o que ele realmente estava tentando proteger.
Sadi começou a juntar pequenas pistas.
O quarto preparado antes da chegada.
O anel de ferro feito à mão.
A maneira como ele carregou seu único baú como se carregasse algo precioso.
Cada detalhe apontava para uma verdade que ninguém queria enxergar.
Lucien não tinha levado uma esposa para servir a ele.
Ele tinha levado alguém para longe de uma cidade que já tinha decidido que ela não importava.
Mas a maior revelação ainda estava guardada naquela forja.
E quando Sadi descobrisse por que Lucien realmente aceitou aquele acordo, ela entenderia que a noite do casamento não tinha sido o momento em que sua vida acabou.
Tinha sido o primeiro dia em que alguém finalmente escolheu protegê-la.