Posted in

Ela Subiu a Montanha Proibida e Encontrou o Irmão do Seu Captor-neyney

O homem da montanha baixou a espingarda antes que o captor pudesse avançar entre as árvores e afastou a tábua do piso com o pé.

— Vamos descer — decidiu. — Mas você vai na frente, porque conhece o acampamento melhor do que eu.

Ela não esperava confiança, muito menos obediência, e por isso entendeu o peso daquela escolha.

Image

O homem que surgira no meio da fumaça ainda não tinha percebido a abertura no chão.

Ela deixou os joelhos dobrarem como se a dor finalmente a tivesse vencido e apoiou uma das mãos na parede da casa.

— Ela está aqui! — gritou o captor para os outros. — Eu a encontrei!

Ele se aproximou depressa demais.

Quando passou pela porta, o homem da montanha o puxou para dentro, torceu seu braço e o derrubou sem disparar um único tiro.

Ela tomou a arma do captor antes que ele pudesse gritar novamente.

— Quantos subiram? — perguntou.

O homem caído cuspiu no chão.

— O suficiente para arrancar esta casa das pedras.

A fumaça já entrava sob o telhado quando o homem da montanha amarrou os pulsos do captor com a mesma corda que havia ferido os dela.

Ele não o matou.

Também não o levou consigo.

Deixou-o preso junto ao fogareiro apagado, longe das chamas que avançavam pelo lado de fora, e desceu pela abertura.

Ela entrou logo depois, levando a faca em uma mão e a arma tomada na outra.

A passagem era estreita, úmida e escura, sustentada por pedaços de madeira colocados entre as pedras muitos anos antes.

Em certo ponto, o homem passou por uma rachadura lateral coberta por raízes secas.

— Não leva a lugar nenhum — disse ele. — Desabou há dois invernos.

Ela guardou a informação e continuou descendo.

Quando alcançaram uma fenda na encosta leste, o fogo ainda não havia chegado àquele lado da montanha.

Dali, podiam ver o acampamento no desfiladeiro.

Os seis prisioneiros estavam vivos, amarrados uns aos outros por uma corda presa aos tornozelos.

Os captores desmontavam as barracas, carregavam mantimentos e selavam os cavalos.

Não estavam se preparando para enfrentar o homem da montanha.

Estavam partindo.

— Eles deveriam seguir para o oeste — murmurou ela. — É o caminho mais largo.

O chefe levantou o braço e apontou para a trilha leste, exatamente na direção da passagem escondida.

Depois ergueu o rosto.

Mesmo àquela distância, pareceu olhar diretamente para a fenda onde os dois estavam.

O homem da montanha recuou para a sombra.

— Ele conhece este caminho.

— Como?

Ele apertou as duas fivelas dentro do bolso.

— Porque foi meu irmão quem me ajudou a abri-lo.

A resposta mudou o plano antes que eles dessem mais um passo.

A passagem não era uma vantagem secreta.

Era o lugar onde o chefe esperava encontrá-los.

Ela observou o acampamento e percebeu que os cavalos estavam sendo organizados em duas fileiras.

Os animais mais fortes carregavam mantimentos.

Os mais cansados receberiam os prisioneiros.

O chefe não pretendia abandonar ninguém durante a fuga.

Pretendia levar todos consigo.

— Existe outra entrada? — ela perguntou.

— Nenhuma que ainda esteja aberta.

— Então vamos usar a entrada que eles estão esperando.

Ele a encarou como se quisesse ter certeza de que tinha ouvido corretamente.

Ela apontou para as marcas da corda nos próprios pulsos.

— Você vai descer amarrado.

— Isso não parece um plano.

— Eles me viram fugir sozinha e sabem que eu subi até sua casa. Se eu aparecer levando você, vão me deixar chegar perto do chefe.

— E depois?

Ela olhou para o acampamento mais uma vez.

— Depois descobrimos por que ele queria que eu roubasse aquela fivela.

O homem da montanha permaneceu em silêncio.

A ideia de ser conduzido como prisioneiro claramente lhe repugnava, mas ele não discutiu quando ela cortou uma tira do forro de seu casaco e passou o tecido ao redor de seus pulsos.

Ela fez um nó que parecia firme por fora, mas podia ser aberto com uma torção.

Em seguida, entregou a ele a faca e pediu que a escondesse dentro da manga.

— Se eu estiver errada, você se solta antes que eles atirem.

— E se você estiver certa?

— Então não faça nada até eu mandar.

Desceram pela trilha leste enquanto o fogo subia pelo lado oposto.

Ela caminhava mancando, mas manteve a arma apontada para as costas dele sempre que os guardas podiam vê-los.

O primeiro captor surgiu atrás de uma pedra e quase disparou.

— Abaixe isso — ela ordenou. — O chefe quer este homem vivo.

— E desde quando você dá ordens?

Ela retirou do bolso a metade da fivela que o homem da montanha lhe havia devolvido.

O captor reconheceu o desenho e perdeu o sorriso.

— Encontrei isso na casa dele — mentiu ela. — Leve-me até o chefe ou explique depois por que nos deixou morrer na trilha.

A ameaça funcionou porque o fogo já estava perto demais para qualquer discussão.

O homem abriu passagem.

Outros captores se aproximaram, rindo ao ver o temido morador da montanha com as mãos amarradas.

Nenhum deles notou que ele observava as saídas, as armas e a posição dos seis prisioneiros.

Ela também observava.

Durante o período em que estivera presa, aprendera onde guardavam água, onde dormiam os vigias e qual cavalo dava coices quando alguém se aproximava pelo lado esquerdo.

Conhecia ainda o som que fazia a trava de madeira da cerca dos animais.

Era uma peça gasta que precisava ser erguida antes de ser puxada.

Sozinha, aquela informação não significava liberdade.

Naquele momento, podia decidir quem alcançaria os cavalos primeiro.

O chefe os esperava perto de uma carroça carregada.

A cicatriz junto ao queixo era igual à descrição que ela fizera na casa.

A perna direita permanecia ligeiramente rígida enquanto ele caminhava.

Quando viu o irmão, não demonstrou surpresa.

— Demorou — disse apenas.

O homem da montanha parou a poucos passos dele.

— Você incendiou minha casa.

— A casa ainda está de pé.

— Por enquanto.

O chefe estendeu a mão para ela.

— A fivela.

Ela não entregou.

— Primeiro solte os seis.

Alguns homens riram, mas o chefe continuou olhando para o objeto na mão dela.

— Você acha que escapou porque foi mais rápida do que todos nós?

Ela sentiu um frio que não vinha do vento.

O chefe tocou o próprio cinturão, mostrando o espaço onde a peça deveria estar.

— Eu afrouxei a fivela antes de entrar na sua barraca. Também deixei seu cavalo com uma correia cortada e mandei o vigia beber até não conseguir ficar em pé.

Ela apertou a prata entre os dedos.

— Você me deixou fugir.

— Eu precisava que alguém desesperado o bastante atravessasse as pedras e subisse até meu irmão.

O homem da montanha avançou, mas ela levantou a arma, não contra o chefe, e sim diante do peito de seu aliado.

— Ainda não.

Ele parou.

O chefe sorriu pela primeira vez.

— Ela entende mais depressa do que você.

— Por que me queria aqui? — perguntou o homem da montanha.

— Porque o fogo fechará a trilha oeste antes do anoitecer. Você vai abrir a passagem sob sua casa, e nós vamos atravessar a montanha.

— Com os prisioneiros.

— Com tudo o que me pertence.

Ela olhou para os seis.

Uma mulher mais velha sustentava uma jovem que mal conseguia permanecer de pé.

Um homem tinha o rosto inchado.

Os outros mantinham os olhos fixos no chão, como pessoas que já tinham aprendido que qualquer reação podia ser punida.

O chefe não os via como vidas que poderiam morrer no incêndio.

Via como carga.

— Você marcou a fivela com três riscos — disse o homem da montanha. — Nosso sinal para uma rota falsa.

— E você seguiu o sinal.

— Aquilo significava que eu não deveria confiar no caminho visível.

— Significava que eu sabia que você procuraria outro.

O homem da montanha percebeu então que a lembrança compartilhada entre os dois havia sido transformada em armadilha.

O chefe não tinha pedido socorro.

Tinha usado a esperança de ser encontrado para abrir uma porta que não conseguia arrombar.

— Você poderia ter subido sozinho — disse o homem da montanha.

A expressão do chefe mudou por um instante.

— Eu subi uma vez, anos atrás.

— Nunca chegou à casa.

— Cheguei às pedras escuras e encontrei pegadas voltando para o vale. Pensei que tivesse abandonado tudo.

— Eu procurava você.

— Todos disseram que eu estava morto, e você acreditou.

— Encontrei sangue, seu cavalo e parte do arreio quebrado. Procurei durante meses.

O chefe tocou a perna rígida.

— Fiquei três dias preso entre as pedras antes que homens que você chama de criminosos me tirassem de lá.

— E depois você se tornou pior do que eles.

O chefe não respondeu.

A mulher compreendeu que aquela discussão podia explicar a origem da crueldade, mas não diminuía nenhuma das cordas amarradas diante dela.

O homem tinha sido deixado ferido e acreditara que o irmão escolhera não voltar.

Em vez de enfrentar essa ferida, construíra um mundo onde ninguém podia abandoná-lo porque ninguém tinha permissão para partir.

— Abra a passagem — ordenou o chefe. — Quando estivermos do outro lado, libertarei os seis.

Ela olhou para os mantimentos amarrados aos cavalos e percebeu algo que os irmãos, presos ao passado, não estavam vendo.

Havia comida preparada para vários dias.

As cordas dos prisioneiros tinham sido reforçadas.

E dois captores carregavam barras de ferro usadas para fechar portas por fora.

— Ele está mentindo — disse ela.

O chefe virou o rosto lentamente.

— Cuidado.

— Se pretendesse libertá-los, não estaria levando as barras das celas.

Os homens próximos pararam de sorrir.

O homem da montanha examinou a carga e entendeu.

A passagem sob a casa não seria apenas uma rota de fuga.

Tornaria a montanha uma nova prisão, cercada por pedras, fogo e um único caminho conhecido.

— Você não quer atravessar — disse ele. — Quer tomar minha casa.

— Quero um lugar que ninguém consiga cercar.

— Já trouxe homens armados, prisioneiros e fogo para a porta. Você é o cerco.

O chefe fez um gesto curto.

Dois captores agarraram a mulher pelos braços.

Ela não resistiu imediatamente.

Outro homem retirou a arma de sua mão, e um terceiro apertou as amarras do homem da montanha sem perceber que o nó verdadeiro estava escondido sob o tecido.

O chefe recuperou a metade da fivela.

Juntou-a à outra peça retirada do bolso do irmão.

O animal de dentes expostos apareceu completo entre suas mãos.

— Nosso pai dizia que duas partes sobreviviam apenas quando permaneciam juntas — falou o chefe.

— Nosso pai dizia muitas coisas antes de nos deixar sozinhos — respondeu o irmão.

— Talvez eu tenha sido o único que escutou.

Ele guardou as fivelas e ordenou que conduzissem todos até a trilha.

O fogo estalava acima do desfiladeiro, lançando pequenos fragmentos queimados sobre o acampamento.

Os cavalos se agitavam.

Os captores precisavam agir depressa, e a pressa fazia com que parassem de observar detalhes.

A mulher sentiu a faca escondida pelo homem da montanha tocar seu pulso quando ele foi empurrado para perto dela.

Com cuidado, ele deixou o cabo deslizar até seus dedos.

Ela fechou a mão sobre a lâmina sem mudar de expressão.

— O caminho lateral realmente desabou? — sussurrou.

— A entrada desabou.

— Não foi isso que perguntei.

Ele a olhou.

— A passagem continua atrás das raízes, mas termina acima de uma queda estreita.

— Dá para descer?

— Uma pessoa de cada vez, com uma corda.

Ela olhou para as amarras dos seis prisioneiros.

Havia corda suficiente.

O problema seria alcançar a rachadura sem que os captores os seguissem.

Quando passaram perto do curral, ela viu a égua cinzenta que sempre caminhava à frente dos outros animais.

Durante as noites de cativeiro, observara um rapaz conduzi-la batendo duas vezes na madeira da cerca e assobiando baixo.

O rapaz não estava mais ali.

O chefe o havia enviado montanha acima com o primeiro grupo.

Ela diminuiu o passo e fingiu tropeçar.

Um captor puxou seu braço.

— Continue.

— Meu pé está sangrando.

— Então sangre andando.

Ela se levantou apoiando a mão na cerca.

Os dedos encontraram a trava de madeira.

Ergueu a peça antes de puxá-la, exatamente como tinha visto tantas vezes.

A porteira abriu apenas alguns centímetros.

O suficiente.

Ela bateu duas vezes na madeira.

Depois assobiou.

A égua cinzenta levantou a cabeça.

O primeiro movimento foi lento.

O segundo empurrou a porteira.

Quando a trava caiu no chão, o animal avançou, e todos os cavalos atrás dela seguiram de uma vez.

O curral explodiu em cascos, poeira e gritos.

Um captor foi derrubado.

Outro largou o rifle para segurar uma mula carregada.

A carroça girou quando dois animais presos a ela tentaram acompanhar a manada.

A mulher cortou a própria corda, virou-se e atingiu o homem que a segurava com o cabo da faca.

O homem da montanha soltou o nó dos pulsos e tomou a arma caída no chão.

— Os prisioneiros! — ela gritou.

Ele não correu em direção ao irmão.

Correu para os seis.

Essa escolha custou a única oportunidade que tinha de capturar o chefe antes que os outros homens se reorganizassem.

Também foi a primeira coisa que provou que ele não tinha descido apenas para resolver uma história de família.

Ela alcançou a mulher mais velha e cortou a corda de seus tornozelos.

— Levem quem não consegue andar — ordenou. — Sigam a fumaça mais clara, nunca a mais escura.

O homem de rosto ferido pegou a jovem nos braços.

O homem da montanha libertou os demais enquanto disparos atingiam o chão ao redor deles.

Ele respondeu apenas quando um captor apontou diretamente para os fugitivos.

O tiro arrancou a arma da mão do homem e o fez recuar.

— Pela trilha! — gritou o homem da montanha.

Eles correram para a encosta leste.

A mulher ficou por último, mancando, para impedir que alguém fosse separado.

O chefe apareceu entre a poeira com as duas fivelas presas novamente ao cinturão.

Poderia ter atirado nela.

Em vez disso, mirou no alto da trilha e disparou contra uma corda amarrada entre duas árvores.

Um conjunto de troncos desceu pela encosta, bloqueando a passagem principal.

— Eu avisei que conhecia o caminho! — gritou.

Os fugitivos pararam diante da barreira.

Atrás deles, os captores se aproximavam.

À esquerda, o fogo descia por uma vala seca.

À direita, a encosta terminava em pedras altas demais para serem escaladas pelos feridos.

O homem da montanha examinou os troncos e depois a fumaça.

— Não conseguiremos voltar à entrada da casa.

— Não precisamos — respondeu ela. — Precisamos chegar à rachadura.

Ele apontou para uma faixa de pedras parcialmente coberta pelas chamas.

— Fica do outro lado.

Os prisioneiros olharam para ela.

Esperavam uma ordem, não porque a conhecessem bem, mas porque fora ela quem abrira a porteira.

Ela percebeu que todos continuariam presos se aguardassem os dois irmãos decidirem qual deles controlaria a montanha.

— Molhem os casacos — disse.

Havia dois barris de água presos à carroça inclinada.

O homem da montanha atirou na corda que segurava um deles.

O barril rolou, bateu em uma pedra e se abriu, espalhando água pelo chão.

Eles mergulharam tecidos, cobriram o rosto da jovem e ajudaram os feridos a atravessar a faixa onde o fogo ainda era baixo.

Não foi uma passagem limpa.

O calor queimou braços, a fumaça roubou o ar e uma das mulheres caiu de joelhos antes de alcançar as pedras.

A fugitiva voltou e a ergueu pelo ombro machucado.

— Você já voltou por nós uma vez — disse a mulher. — Não precisa voltar de novo.

— Preciso até todos saírem.

O homem da montanha abriu caminho entre as raízes secas que cobriam a rachadura.

A passagem era tão estreita que precisaram entrar de lado.

Lá dentro, o ar estava escuro, mas não tão quente.

Ele amarrou as cordas dos prisioneiros umas às outras e criou uma linha longa o bastante para alcançar a parte inferior da queda.

Desceu primeiro, testando cada apoio.

Depois recebeu os feridos um por um.

A mulher permaneceu no alto, segurando a corda ao redor do corpo enquanto os antigos prisioneiros desapareciam na abertura.

Quando restavam apenas ela e a mulher mais velha, o chefe entrou na rachadura.

Estava sozinho.

A fumaça cobria seu rosto e havia sangue em sua camisa, mas ele ainda segurava a arma.

— Meus homens vão encontrar outra entrada — disse.

— Então perca menos tempo falando.

Ele apontou para a corda.

— Eu vou primeiro.

— Os prisioneiros vão primeiro.

— Você não está em posição de decidir.

Ela ergueu a faca.

— Foi isso que você pensou quando deixou sua fivela ao meu alcance.

A mulher mais velha começou a descer.

O chefe poderia ter avançado, mas o irmão apareceu na parte inferior da queda e levantou a arma.

Os dois ficaram separados pela altura, pela fumaça e por tudo o que não haviam dito durante anos.

— Deixe-a passar — ordenou o homem da montanha.

O chefe olhou para trás.

Vozes ecoavam na entrada da rachadura.

Seus homens realmente estavam chegando.

— Eles não vão parar — disse ele.

— Você os ensinou a não parar.

— Eu os mantive vivos.

— Você os manteve obedientes.

O chefe fechou os olhos por um instante.

Quando tornou a abri-los, guardou a arma no cinturão e se abaixou junto à entrada.

O primeiro captor surgiu entre as raízes.

— Segure a passagem — mandou o chefe.

— Saia da frente.

— Há pessoas descendo.

— Não precisamos delas.

O captor levantou o rifle.

O chefe o atingiu antes que disparasse.

Os dois caíram contra as pedras.

Outro homem tentou entrar, e o chefe empurrou um dos troncos soltos que sustentavam as raízes.

A abertura cedeu parcialmente.

Terra e pedras bloquearam o caminho, deixando apenas uma fresta por onde a fumaça continuou entrando.

O preço da escolha foi imediato.

Uma pedra atingiu sua perna ferida, e ele caiu sem conseguir se levantar.

A mulher poderia ter descido e deixado que o desmoronamento terminasse o que ele havia começado.

Em vez disso, amarrou a corda ao redor do peito dele.

— Isso não apaga nada — avisou.

— Eu sei.

— Não está descendo como herói.

— Eu sei.

— E não vai desaparecer de novo.

Dessa vez, ele demorou a responder.

— Eu sei.

Ela fez sinal para o homem da montanha puxar.

Os dois irmãos trabalharam de lados opostos da queda, enquanto ela guiava a perna machucada para impedir que ficasse presa nas pedras.

Quando o chefe chegou ao fundo, o irmão não o abraçou.

Também não o abandonou.

Colocou o braço dele sobre os ombros e o ajudou a caminhar.

Atravessaram o restante da passagem antes que a fumaça a tornasse impossível.

Do outro lado da montanha, encontraram uma área de pedras onde o fogo já havia consumido quase toda a vegetação rasteira.

Os seis sobreviventes se reuniram ali.

Ninguém comemorou.

Estavam queimados, feridos, com fome e ainda podiam ouvir os homens presos procurando outra saída.

A mulher contou cada pessoa duas vezes.

Só então permitiu que suas pernas cedessem.

O homem da montanha se ajoelhou para examinar o pé dela.

— Você precisa descansar.

— Primeiro precisamos decidir o que fazer com ele.

O chefe estava sentado contra uma pedra, a arma colocada no chão, longe de sua mão.

A mulher mais velha se aproximou.

— Ele nos deu comida quando outros queriam nos deixar morrer — disse ela. — E depois nos amarrou quando pedimos para partir.

O chefe abaixou os olhos.

A frase continha tudo o que ele tentaria usar em sua defesa e tudo o que tornava essa defesa inútil.

Ele havia praticado pequenos atos de proteção dentro de uma crueldade que ele mesmo comandava.

Salvar alguém da violência de seus próprios homens não lhe dava o direito de manter essa pessoa presa.

— Vamos até o povoado — decidiu a fugitiva. — Os seis vão contar o que aconteceu. Ele também.

O homem da montanha olhou para o irmão.

— Se eu for, minha casa ficará vazia.

— Sua casa quase queimou porque você tentou viver como se ninguém pudesse alcançá-lo.

Ele não discutiu.

O chefe soltou uma risada cansada.

— Ela fala com você como se fosse dona da montanha.

— Não — respondeu o homem da montanha. — Ela fala como alguém que se recusou a ser propriedade de qualquer pessoa.

Viajaram durante dois dias.

Usaram os cavalos que conseguiram recuperar depois que a manada se dispersou e improvisaram uma maca para a jovem que não conseguia permanecer montada.

O chefe não tentou fugir.

Talvez soubesse que a perna não permitiria.

Talvez entendesse que qualquer nova fuga confirmaria tudo o que os sobreviventes diriam.

Quando chegaram ao povoado, os seis contaram separadamente como haviam sido capturados, ameaçados e transportados.

A mulher entregou a faca, a arma tomada no acampamento e as duas fivelas aos responsáveis por registrar os relatos.

O chefe foi mantido sob vigilância enquanto os outros homens eram procurados nas estradas próximas.

O irmão permaneceu tempo suficiente para contar sobre o incêndio, a passagem e a tentativa de usar os prisioneiros para tomar a montanha.

Não pediu perdão por ele.

Não pediu que o tratassem como um monstro incapaz de escolher.

Disse apenas a verdade inteira, inclusive a parte em que o irmão bloqueara os próprios homens e ajudara os prisioneiros a escapar.

A mulher fez o mesmo.

Reconhecer aquele último gesto não apagava os anteriores.

Era justamente por ele ainda ser capaz de escolher que precisava responder pelas escolhas feitas antes.

Semanas depois, ela voltou à montanha com dois dos sobreviventes.

A casa continuava de pé, embora parte do alpendre tivesse queimado e a parede perto do fogareiro estivesse escurecida.

O captor deixado amarrado havia escapado, mas não tivera tempo de destruir o lugar.

O homem da montanha começou a reparar o telhado.

Ela cuidou do pé, recuperou a força das mãos e ajudou a abrir novamente a trilha lateral.

Não ficou porque precisava de proteção.

Ficou porque aquela passagem ainda era usada por viajantes que poderiam encontrar homens armados antes de chegar ao outro lado.

A casa isolada passou a guardar água, comida seca, cobertores e cordas limpas.

As pessoas que subiam não eram interrogadas antes de receber abrigo.

Também não eram obrigadas a permanecer depois que desejavam partir.

Meses mais tarde, devolveram as duas fivelas.

O homem da montanha colocou as peças lado a lado sobre a mesa.

O animal de dentes expostos tornou a aparecer.

— Ele vai querer isto quando sair — disse.

— Talvez.

— Era de nossa família.

Ela passou o dedo sobre os três riscos.

— Então decidam que tipo de família querem carregar quando esse dia chegar.

Ele não juntou novamente as peças.

Pregou uma de cada lado da nova trava da porta, separando as duas metades do animal.

Os dentes já não formavam uma boca.

Os três riscos permaneceram visíveis na parte externa, mas deixaram de apontar para uma rota falsa.

Passaram a marcar uma porta que podia ser aberta por dentro e por fora.

Certa tarde, cascos soaram na trilha.

O homem da montanha se levantou por hábito e estendeu a mão na direção da espingarda.

Ela abriu a porta antes dele.

Uma família desconhecida aguardava perto das pedras escuras, com uma criança cansada e um cavalo mancando.

— Vocês trouxeram companhia — disse ela.

A frase que antes anunciara perigo agora significava apenas que havia mais lugares para preparar junto ao fogo.

O homem retirou a mão da arma, ergueu a trava presa entre as duas fivelas e abriu completamente a passagem.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *