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Ela Foi Enganada Pelo Irmão Dele — E Acabou Devolvendo Seu Riso-neyney

Quando Lydia aceitou passar somente aquela noite no rancho, Elias entendeu que abrir sua casa para ela poderia exigir mais coragem do que a solidão dos últimos três anos.

Ele pegou o baú quebrado antes que ela pudesse protestar, enquanto Lydia segurava a gaiola do papagaio junto ao peito e tentava ignorar o irmão de Elias, que permanecia perto da rua com a expressão de quem finalmente compreendia o tamanho do estrago que havia causado.

— Eu posso carregar minhas próprias coisas — Lydia disse.

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— Eu sei.

Elias ergueu o baú mesmo assim.

Foi a resposta mais curta possível, mas Lydia percebeu a diferença entre alguém que a considerava incapaz e alguém que apenas estava oferecendo ajuda.

Ela deixou.

O caminho até o rancho foi feito quase todo em silêncio.

A neve rangia sob as rodas, o vento empurrava pequenas nuvens brancas pela estrada, e Lydia mantinha as mãos escondidas dentro das mangas porque ainda não conseguia sentir direito a ponta dos dedos.

O papagaio, talvez ofendido com a viagem ou com a queda, soltava resmungos ocasionais debaixo do pano.

Elias dirigia sem olhar muito para ela.

Mas também não parecia mais olhar através dela.

Quando chegaram, Lydia entendeu imediatamente por que as cartas haviam sido tão convincentes.

O rancho era exatamente como lhe fora descrito.

A casa de madeira ficava protegida por uma elevação baixa, os currais se estendiam além do celeiro, e mesmo sob o branco pesado do inverno havia alguma coisa ampla naquele lugar, uma sensação de céu demais e distância demais que ela reconheceu das páginas que carregava havia meses.

Esse reconhecimento doeu.

Cada detalhe familiar pertencia a um homem que nunca soubera que estava contando aquelas coisas a ela.

Elias abriu a porta da casa e colocou o baú perto da parede.

O interior era simples, limpo e frio de um jeito diferente do lado de fora.

Não havia desordem, mas também não havia sinais de alguém que esperasse companhia.

Uma única caneca perto do fogão.

Um único casaco pendurado.

Uma cadeira usada com frequência diante da lareira e outra que parecia quase decorativa.

Lydia olhou para a segunda cadeira.

Elias percebeu.

— O quarto fica no corredor. É pequeno, mas tem cobertores suficientes.

— Obrigada.

Ele assentiu.

Nenhum dos dois mencionou casamento.

Nenhum dos dois mencionou as cartas.

Por quase cinco minutos.

Então o papagaio resolveu fazer isso por eles.

Lydia retirou o pano da gaiola, e a ave inclinou a cabeça para Elias antes de repetir, com precisão constrangedora, uma frase que ela provavelmente aprendera durante a viagem.

— Maldito mentiroso!

Lydia fechou os olhos.

— Eu gostaria de explicar.

Elias pressionou os lábios.

Ela reconheceu o esforço.

— Não ria.

Ele virou o rosto.

— Elias.

Os ombros dele começaram a tremer.

— Não ouse.

Foi pior.

A gargalhada escapou outra vez, menos explosiva que a primeira na rua, mas ainda verdadeira.

Lydia ficou indignada durante exatamente o tempo necessário para perceber que também estava começando a rir.

Aquilo a irritou ainda mais.

— Passei três semanas numa diligência, fui enganada pelo seu irmão, quase congelei ao chegar, caí em cima de um bebedouro, espalhei minhas roupas íntimas diante de metade da rua e agora meu papagaio resolveu insultar o único homem que me ofereceu um teto.

Elias limpou os olhos com o dorso da mão.

— Quando você coloca dessa forma…

— Não melhora.

— Não.

Outra pausa.

— Mas fica difícil não rir.

Lydia apontou um dedo para ele.

— Então ria enquanto pode. Amanhã vou descobrir como sair daqui.

A frase fez a expressão dele mudar.

Não endurecer.

Mudar.

— Certo — Elias respondeu. — Amanhã eu ajudo você a descobrir.

Aquilo também a surpreendeu.

Nenhuma tentativa de convencê-la a ficar.

Nenhum argumento sobre o esforço da viagem.

Nenhuma referência à expectativa de casamento.

Ele simplesmente aceitou que a decisão pertencia a ela.

Mais tarde, enquanto uma panela aquecia sobre o fogão, Lydia encontrou coragem para fazer a pergunta que vinha evitando desde a cidade.

— Sua esposa morreu há três anos?

Elias ficou imóvel por um instante.

— Sim.

— No inverno de 1875?

Ele a encarou.

Lydia tocou o bolso onde guardara as cartas.

— Seu irmão mencionou o inverno. Nunca explicou o motivo.

Elias voltou a atenção para o fogo.

— Ela adoeceu rápido. Quando percebi o quanto estava mal, já não havia muito que pudesse ser feito.

Lydia esperou.

Ele não disse mais nada.

Ela não insistiu.

Essa escolha pareceu surpreendê-lo tanto quanto a resposta dele a surpreendera antes.

Depois do jantar, Elias mostrou o quarto e deixou uma lamparina sobre a mesa.

Antes de sair, viu o maço de cartas que Lydia colocara ao lado do baú.

— Posso perguntar uma coisa?

— Pode.

— Você acreditava mesmo que eu tinha escrito tudo aquilo?

A pergunta continha vergonha, embora a fraude não tivesse sido dele.

Lydia sentou na beirada da cama.

— Eu não conhecia sua caligrafia, senhor Croft.

— Elias.

— Então não conhecia sua caligrafia, Elias.

Ela pegou uma carta.

— Mas acreditei nas histórias. Acreditei que o homem que escrevia parecia solitário sem gostar de admitir. Acreditei que ele respeitava o trabalho duro. Acreditei que não sabia falar de sentimentos diretamente, então falava sobre cavalos, cercas e tempestades.

Elias desviou os olhos para o envelope.

— Meu irmão me conhece bem demais.

— Ou conhece partes de você.

Ele olhou novamente para Lydia.

— Há diferença?

— Uma diferença enorme.

Ela estendeu a carta.

— Foi exatamente por esquecer isso que ele nos colocou nessa situação.

Elias não pegou o papel.

Na manhã seguinte, uma tempestade havia engrossado a neve ao redor da casa.

O caminho estava transitável para quem precisava cuidar dos animais, mas não para uma viagem longa e apressada com um baú quebrado, uma mulher mal vestida para aquele clima e um papagaio que já havia demonstrado péssimo julgamento.

Lydia descobriu isso antes do café.

— Então não posso partir hoje.

— Não com segurança.

— Amanhã?

Elias olhou pela janela.

— Talvez.

— Essa palavra nunca traz boas notícias.

— Em Wyoming, às vezes é a resposta mais precisa.

Ela cruzou os braços.

— Seu irmão usava frases melhores nas cartas.

Elias quase sorriu.

Quase.

Lydia percebeu.

Ele também.

Nos dois dias seguintes, a tempestade reduziu o mundo ao rancho.

Lydia tentou não se sentir prisioneira de uma circunstância criada por uma mentira, e Elias tentou não tratá-la como uma visita frágil que poderia desaparecer caso ele dissesse a coisa errada.

Funcionou mal no começo.

Ela insistiu em ajudar com o café e queimou o pão.

Tentou levar água e derramou metade no chão.

Saiu até o celeiro usando botas emprestadas grandes demais, pisou na barra da própria saia e quase caiu pela segunda vez em três dias.

Elias segurou seu cotovelo antes que acontecesse.

— Nem uma palavra — ela avisou.

— Eu não disse nada.

— Seu rosto disse.

— Meu rosto não diz muita coisa.

— Está aprendendo.

Dessa vez, ele sorriu de verdade.

Foi pequeno.

Mas Lydia viu.

E não comentou.

Na terceira manhã, o irmão apareceu.

Elias o encontrou do lado de fora antes que ele chegasse à porta.

Lydia, que estava dentro da casa, ouviu vozes elevadas mesmo através da madeira.

Não todas as palavras.

Só o suficiente.

O irmão dizia que havia feito aquilo porque Elias estava morrendo aos poucos sem admitir.

Elias respondeu que preocupação não lhe dava o direito de usar outra pessoa.

Então veio a frase que fez Lydia abrir a porta.

— Ela veio porque queria uma vida diferente também — disse o irmão. — Eu pensei que vocês dois poderiam salvar um ao outro.

Lydia apareceu no alpendre.

— Pare de usar essa palavra.

Os dois homens olharam para ela.

— Salvar — Lydia continuou. — Eu não atravessei metade do país para ser salva. E não vim para salvar seu irmão.

O irmão abriu a boca.

— Lydia, eu só…

— Você mentiu durante meses.

Ela desceu um degrau.

— Talvez tenha usado coisas verdadeiras sobre Elias. Talvez acreditasse que estava fazendo algo bom. Mas cada vez que colocou o nome dele em uma carta, decidiu por nós dois.

O homem abaixou os olhos.

Elias permaneceu em silêncio.

Lydia apreciou isso.

Era a primeira vez desde a chegada que alguém permitia que ela terminasse sem explicar sua própria vida por ela.

— Eu sinto muito — o irmão disse enfim.

— Eu acredito que sente.

Ele ergueu os olhos, esperançoso demais.

— Isso não significa que esteja perdoado.

A esperança recuou.

— Entendo.

— Espero que sim.

O irmão se voltou para Elias.

— E você?

Elias demorou um pouco.

— Quando eu tiver alguma coisa para dizer, eu vou procurar você.

O irmão partiu sozinho.

Lydia observou a figura diminuir na neve até desaparecer depois da curva.

— Você poderia ter batido nele — ela disse.

Elias virou a cabeça.

— Isso é uma sugestão?

— Uma observação. Em Boston, muitos homens teriam considerado obrigatório.

— Isso consertaria suas cartas?

— Não.

— Então prefiro economizar energia.

Ela soltou uma risada curta.

Elias olhou para ela como se ainda não tivesse se acostumado à ideia de que o som pudesse existir naquela casa.

Naquela tarde, Lydia tomou uma decisão.

Ela colocou todas as cartas sobre a mesa, organizadas pela data.

Elias entrou, viu os envelopes e parou.

— O que está fazendo?

— Separando o que aconteceu do que eu imaginei que tivesse acontecido.

Ela tocou o primeiro envelope.

— Quero saber uma coisa. Não precisa responder se não quiser.

— Pergunte.

— Essas histórias eram verdadeiras?

Elias sentou na cadeira diante dela.

Lydia abriu uma carta e leu sobre um potro que havia atravessado uma cerca recém-consertada e obrigado Elias a persegui-lo por quase uma hora.

Ele fechou os olhos.

— Verdade.

Outra carta mencionava uma noite em que o vento derrubara parte do cercado.

— Verdade.

Outra descrevia um cavalo velho que só aceitava maçãs cortadas ao meio.

Elias balançou a cabeça.

— Ele morreu no ano passado. Mas era verdade.

Lydia passou por mais duas.

Aos poucos, percebeu a crueldade particular da fraude.

O irmão não havia inventado um homem ideal.

Tinha usado pedaços reais de Elias e acrescentado a eles uma intenção que nunca existira.

Isso tornava tudo mais confuso, não menos.

— Há uma pergunta que aparece três vezes — Lydia disse.

Elias franziu a testa.

Ela encontrou uma das páginas.

— Ele perguntou o que eu esperava encontrar aqui.

— E o que você respondeu?

— Um lugar onde ninguém soubesse quem eu deveria ter sido.

Elias ficou esperando.

— Em Boston, depois que meu pai morreu, descobri que quase tudo em nossa casa pertencia aos credores. O pouco que restou não era suficiente para manter a vida que eu conhecia. Eu poderia ter aceitado depender de parentes que já haviam decidido onde eu viveria, como me vestiria e com quem deveria me casar.

Ela passou o dedo sobre a dobra da carta.

— Então apareceu uma correspondência de um homem no Oeste que parecia querer uma companheira, não uma peça de mobília.

Elias baixou o olhar.

— E esse homem não existia.

Lydia pensou antes de responder.

— O homem das cartas, não exatamente.

Aquilo o atingiu de um jeito que ela não esperava.

— Mas algumas partes existiam — acrescentou. — É justamente esse o problema.

Na manhã seguinte, o céu abriu.

A estrada ainda exigia cuidado, mas a partida já era possível.

Elias informou isso enquanto colocava café diante dela.

Lydia olhou para a caneca.

Era a segunda cadeira agora ocupada todos os dias.

Ela percebeu que ele estava lhe oferecendo exatamente o que prometera: liberdade para ir embora.

— Posso chegar à cidade hoje?

— Pode.

— E há lugar para eu ficar?

— Há.

— Posso conseguir trabalho?

— Provavelmente. O armazém precisa de ajuda às vezes. A hospedaria também.

Ele tinha pensado nas opções.

Não em formas de mantê-la ali.

Em formas de permitir que ela partisse.

Lydia respirou fundo.

— Quero ir à cidade.

Elias assentiu.

— Certo.

Ela esperou algum sinal de desapontamento.

Ele não lhe deu esse peso.

Horas depois, chegaram ao mesmo lugar onde tudo começara.

O bebedouro ainda estava congelado.

Lydia o encarou com profunda hostilidade.

Elias desceu da carroça.

— Quer que eu passe longe dele?

— Quero que alguém o destrua.

— Pertence ao armazém.

— Então comprarei o armazém primeiro.

Ele riu.

Dessa vez, ninguém parou para olhar.

Lydia percebeu isso antes de Elias.

A risada já não parecia um acontecimento impossível.

Era apenas dele.

Na hospedaria, Elias carregou o baú até a porta.

Lydia segurava a gaiola numa mão e o maço de cartas na outra.

— Então é isso — ela disse.

— É.

Nenhum deles parecia satisfeito com a simplicidade da frase.

Elias tirou o chapéu.

— Lydia, eu preciso dizer uma coisa.

Ela esperou.

— Não posso desfazer o que meu irmão fez. E não quero que nenhuma escolha sua daqui para frente seja uma continuação daquela mentira.

Ela apertou os envelopes.

— Concordo.

— Então não vou pedir que volte comigo.

Aquilo doeu mais do que deveria.

Até que ele continuou.

— Mas gostaria de escrever para você.

Lydia piscou.

Elias olhou para as cartas em sua mão.

— Uma carta verdadeira desta vez. Com meu nome. Minhas palavras. Sem ninguém decidindo por nós.

Ela ficou em silêncio por dois segundos.

— Sua caligrafia é boa?

Ele pareceu ofendido.

— É legível.

— Isso não foi o que perguntei.

— Então vai precisar descobrir.

Lydia sentiu o sorriso nascer antes que pudesse impedir.

— Uma carta — disse ela. — Depois eu decido se merece resposta.

— Justo.

Ele colocou o chapéu novamente e caminhou até a carroça.

Lydia entrou na hospedaria sem olhar para trás até ouvir o papagaio gritar dentro da gaiola:

— Maldito mentiroso!

Ela se virou.

Elias estava parado ao lado da carroça, rindo outra vez.

Lydia apontou para a ave.

— Isso era para seu irmão.

— Espero que seja.

Três dias depois, chegou a primeira carta.

Não tinha histórias elegantes.

Não tinha frases cuidadosamente construídas para impressioná-la.

Elias escreveu que uma dobradiça do celeiro havia quebrado, que o café continuava ruim porque ele sempre deixava a água ferver demais e que o cavalo mais jovem conseguira roubar uma luva do bolso dele.

No fim, acrescentou apenas que a segunda cadeira à mesa parecia estranha vazia.

Lydia respondeu.

Disse que encontrara trabalho temporário ajudando na hospedaria, que o papagaio aprendera a imitar a proprietária chamando hóspedes para o jantar e que ainda considerava o bebedouro seu inimigo pessoal.

Não mencionou a segunda cadeira.

Na carta seguinte, Elias também não.

Na terceira, perguntou se ela gostaria de visitar o rancho num domingo.

Lydia aceitou.

Não como noiva.

Não como mulher prometida.

Como Lydia.

Foi assim que começaram de novo.

Sem o irmão de Elias entre as linhas.

Sem promessas que nenhum dos dois fizera.

Sem necessidade de fingir que a primeira chegada tinha sido romântica.

Durante os meses seguintes, Lydia continuou trabalhando na cidade e visitando o rancho quando queria.

Às vezes Elias vinha buscá-la.

Às vezes ela conseguia transporte com conhecidos.

Às vezes passavam horas conversando.

Às vezes discutiam.

Lydia descobriu que Elias podia ser teimoso a ponto de transformar qualquer decisão simples em uma disputa de resistência.

Elias descobriu que Lydia tinha uma capacidade extraordinária de derrubar objetos quando tentava provar que não precisava de ajuda.

Uma tarde, ela tentou alcançar uma caixa numa prateleira do celeiro, perdeu o equilíbrio e caiu sentada numa pilha de feno.

Elias riu antes de perguntar se ela estava bem.

Lydia jogou um punhado de feno nele.

Ele riu mais.

Ela também.

Mas nem tudo entre eles se resolveu com facilidade.

Quando a primavera começou a aparecer sob a neve, Elias finalmente falou mais sobre a esposa.

Não porque Lydia perguntou.

Porque decidiu.

Contou que durante muito tempo sentira culpa sempre que alguma coisa lhe parecia agradável depois da morte dela.

Uma refeição boa.

Um dia de sol.

Uma piada.

A primeira gargalhada provocada pela queda de Lydia o assustara por isso.

— Achei que tinha esquecido alguma coisa que deveria continuar doendo — confessou.

Lydia ficou ao lado dele na cerca.

— E agora?

— Agora acho que dor e memória não são a mesma coisa.

Ela não respondeu com uma lição.

Apenas colocou a mão sobre a madeira, perto da dele.

Elias virou a palma para cima.

Lydia encaixou os dedos nos seus.

Foi a primeira vez que se tocaram daquele jeito desde o dia em que ele a levantara do bebedouro.

Dessa vez ninguém estava caindo.

O irmão demorou mais de dois meses para aparecer de novo.

Quando veio, não trouxe explicações novas.

Isso foi importante.

Não tentou transformar a fraude em sacrifício.

Não disse que tudo dera certo no fim, como se um possível final feliz pudesse apagar o método usado para produzi-lo.

Ele apenas devolveu a Elias um pequeno maço de rascunhos das cartas que havia enviado em seu nome.

— Guarde, queime ou faça o que quiser — disse. — Eu não deveria ter escrito nenhuma delas.

Elias não respondeu imediatamente.

Depois olhou para Lydia.

Ela não decidiu por ele.

Elias pegou os papéis.

— Eu ainda estou com raiva.

— Eu sei.

— E não confio em você como antes.

O irmão assentiu.

— Eu sei.

— Mas um dia talvez possamos conversar sem isso entre nós.

Não era perdão completo.

Era apenas uma porta que Elias escolhera não fechar para sempre.

O irmão aceitou o limite e foi embora.

Naquela noite, Elias colocou os rascunhos sobre a mesa ao lado das cartas verdadeiras que ele e Lydia haviam trocado desde a separação na cidade.

A diferença era visível mesmo antes de abrir os envelopes.

As cartas falsas eram cuidadosas demais.

As verdadeiras tinham manchas, correções, frases tortas e a caligrafia que Lydia agora podia reconhecer de longe.

— O que vai fazer com as primeiras? — Elias perguntou.

Lydia pensou.

— Guardar algumas.

Ele pareceu surpreso.

— Por quê?

— Porque foram uma mentira que me trouxe até aqui. Fingir que nunca existiram seria outra espécie de mentira.

Ela separou o primeiro envelope.

— Mas não vou misturá-las com as outras.

Pegou então a primeira carta realmente escrita por Elias e colocou-a em outro maço.

— Estas começaram depois que eu tive escolha.

Elias ficou olhando para os dois grupos de papel.

Meses depois, quando o verão já havia transformado a paisagem e a estrada até a cidade não carregava mais neve, Elias levou Lydia até o velho bebedouro diante do armazém.

Ela parou a uma distância segura.

— Por que estamos aqui?

— Preciso perguntar uma coisa.

— Se envolver subir nessa coisa, a resposta é não.

— Não envolve.

Ele tirou um envelope do bolso.

Lydia reconheceu a caligrafia imediatamente.

— Outra carta?

— A última desse tipo, talvez.

Ela abriu.

O texto era curto.

Elias dizia que não queria uma mulher trazida por correspondência, nem alguém encarregado de consertar sua vida, nem uma substituta para quem havia perdido.

Queria Lydia exatamente como ela tinha se apresentado desde o primeiro dia: teimosa, independente, inconvenientemente corajosa e perigosa perto de qualquer superfície escorregadia.

No fim, havia uma pergunta.

Lydia levantou os olhos.

— Você poderia ter perguntado em voz alta.

— Poderia.

— Seria mais simples.

— Provavelmente.

— E você ainda escolheu escrever.

— Achei apropriado.

Ela dobrou a carta devagar.

— Elias Croft, depois de tudo que aconteceu, você realmente decidiu me pedir em casamento por correspondência?

Ele finalmente percebeu o absurdo.

A gargalhada veio primeiro dela.

Depois dele.

Ficaram ali rindo diante do lugar onde Lydia havia caído meses antes, enquanto algumas pessoas na rua olhavam sem entender a graça.

Quando conseguiu falar, Elias tentou novamente.

Dessa vez sem papel.

— Lydia Marsh, quer se casar comigo?

Ela guardou a carta no bolso.

— Quero.

Não porque tivesse viajado até Wyoming esperando esse casamento.

Não porque o irmão dele planejara.

Não porque as primeiras cartas prometessem uma vida que ela deveria aceitar.

Ela disse sim depois de conhecer o homem que realmente existia por trás das histórias roubadas.

E Elias ouviu a resposta de uma mulher que agora conhecia todas as partes dele que o irmão jamais poderia colocar numa página.

Naquela noite, de volta ao rancho, Lydia colocou sua caneca na mesa e sentou na cadeira que antes parecia não servir para ninguém.

Elias trouxe o café.

Ela provou e fez uma careta.

— Continua horrível.

— Você disse que se casaria comigo mesmo assim.

— Ainda posso estabelecer condições.

Da gaiola, o papagaio inclinou a cabeça.

E, com a mesma voz escandalosa que marcara a primeira manhã dos dois naquela casa, anunciou:

— Maldito mentiroso!

Elias começou a rir antes mesmo de Lydia conseguir reclamar.

Dessa vez, ela não mandou que parasse.

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