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Clara Só Queria Trabalhar — Até Ramiro Desafiar o Próprio Pai por Ela-neyney

Clara não pretendia ouvir conversa alguma naquela noite.

Tinha ido até a casa grande apenas para entregar a Dorotea duas toalhas que terminara de remendar e voltar ao alojamento antes que alguém percebesse sua presença.

Mas, quando passou pelo corredor lateral, ouviu a voz de Mercedes vindo da sala de jantar.

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— Então quero ouvir isso claramente, Eusebio. Se eu abrir o acesso à água para Santa Lúcia, o que exatamente recebo em troca?

Clara parou.

Não por curiosidade.

Porque a resposta de Eusebio veio baixa, firme e terrivelmente parecida com a voz de alguém discutindo o preço de um animal ou de uma parcela de terra.

— Você terá um lugar nesta casa, será esposa de Ramiro e, quando eu não estiver mais aqui, Santa Lúcia ficará ligada ao futuro das suas terras. É o melhor para todos.

Mercedes demorou um instante antes de responder.

— Inclusive para seu filho?

— Principalmente para ele. Ramiro passou a vida inteira precisando que alguém o obrigasse a fazer o que é necessário.

Clara sentiu o estômago apertar.

Não deveria importar.

Ramiro era seu patrão.

Mercedes era a mulher escolhida para ele.

E Clara já decidira partir.

Mesmo assim, aquela conversa a atingiu de um jeito que não soube explicar, porque conhecia bem demais o som de adultos decidindo o futuro de outra pessoa enquanto chamavam aquilo de necessidade.

Aos 15 anos, sua tia também dissera que o comerciante de 46 anos era uma escolha sensata.

Também falara em segurança.

Também falara em gratidão.

Também agira como se Clara fosse um recurso da casa que podia ser entregue para resolver um problema.

Ela recuou um passo.

Foi quando outra voz surgiu atrás dela.

— O que está acontecendo aqui?

Clara se virou depressa.

Ramiro estava a poucos metros, ainda com poeira nas botas e a camisa marcada pelo trabalho do dia.

Pela expressão dele, Clara percebeu que tinha ouvido pelo menos a última parte.

Mercedes apareceu à porta da sala.

Eusebio permaneceu sentado à mesa.

— Entre — disse o pai. — Já que chegou, podemos terminar isso como adultos.

Ramiro não se moveu imediatamente.

Olhou para Clara.

Ela baixou os olhos, constrangida por estar no meio de algo que não lhe pertencia.

— Eu estava indo embora — murmurou.

— Não — respondeu Eusebio. — Talvez seja melhor que fique. Assim ninguém precisa continuar fingindo que não percebe o que está acontecendo nesta fazenda.

Clara ergueu o rosto.

Mercedes cruzou os braços.

Ramiro entrou na sala.

— O que exatamente você ofereceu a Mercedes?

— Uma solução.

— Não foi isso que perguntei.

Eusebio respirou com dificuldade antes de responder.

— Um casamento que beneficia duas propriedades e garante água para Santa Lúcia. Você sabe disso há meses.

— Eu sabia que você queria o casamento. Não sabia que estava negociando minha vida junto com a fazenda.

— Sua vida é esta fazenda.

A frase acertou Ramiro com uma força que nenhum dos presentes pareceu compreender completamente.

Durante 22 anos, ele aceitara aquela ideia sem discutir.

Aos 19, desistira de estudar Direito porque o pai dissera que a terra não se abandonava por capricho.

Depois, assumira contas, trabalhadores, colheitas ruins, reparos, doenças e todas as responsabilidades que Eusebio colocava diante dele.

Nunca tinha chamado aquilo de prisão.

Naquela noite, porém, ouviu o pai oferecer seu casamento como mais uma ferramenta de administração e finalmente percebeu quanto da própria vida jamais escolhera.

Mercedes foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Não dramatize, Ramiro. Ninguém está colocando uma arma em sua cabeça. Estamos falando do futuro.

— Do futuro de quem?

Ela estreitou os olhos.

— Da fazenda que você diz amar.

— E, para salvá-la, eu deveria me casar com você?

— Não finja que isso seria um sacrifício absurdo.

Clara desejou desaparecer dali.

Deu outro passo em direção ao corredor.

Mercedes notou.

— Ela é o problema, não é?

Ramiro virou o rosto.

— Clara não tem nada a ver com isso.

— Claro que tem. Desde que essa mulher apareceu, você começou a agir como um rapaz de 20 anos que acabou de descobrir que pode desafiar o pai.

Clara ficou imóvel.

Eusebio não a defendeu.

Ramiro, sim.

— Não fale dela dessa maneira.

Mercedes soltou uma risada curta.

— Então eu estava certa.

Clara sentiu a velha necessidade de fugir crescer dentro do peito.

Era sempre assim.

Primeiro alguém oferecia bondade.

Depois aparecia o preço.

Talvez Ramiro ainda não tivesse cobrado nada, mas agora ela se via no centro de uma disputa entre um homem, o pai dele e uma mulher cuja propriedade podia decidir o futuro de dezenas de trabalhadores.

Clara não permitiria que sua presença fosse usada como desculpa para destruir nada.

— Eu vou embora amanhã — disse.

Ramiro se virou para ela.

— Não.

A palavra saiu rápido demais.

Clara sustentou o olhar dele.

— O senhor me contratou para trabalhar. Eu agradeço. Mas não quero ser motivo de conflito dentro da sua família.

— Você não é.

— Sou o bastante para estarem falando de mim agora.

Mercedes pareceu satisfeita.

Eusebio apoiou as mãos na mesa.

— Talvez seja realmente o mais sensato.

Ramiro olhou para o pai.

Naquele instante, alguma coisa mudou.

Não foi uma explosão.

Não houve grito.

Ele apenas pareceu cansado de obedecer.

— Clara não será dispensada porque você decidiu negociar meu casamento.

Eusebio endureceu a expressão.

— Enquanto eu estiver vivo, Santa Lúcia ainda é minha responsabilidade.

— E os trabalhadores são minha responsabilidade todos os dias.

— Então aja como responsável.

Ramiro respirou fundo.

— É exatamente o que estou fazendo.

Mercedes se aproximou da mesa.

— Pense bem antes de transformar orgulho em prejuízo. Sem o acesso ao meu poço, você sabe o que pode acontecer na próxima temporada.

Ramiro sabia.

Era isso que tornava a escolha difícil.

Se Mercedes estivesse apenas tentando manipulá-lo com ciúme ou vaidade, seria simples mandá-la embora.

Mas havia uma necessidade real por trás da proposta.

Santa Lúcia precisava de água.

Os trabalhadores dependiam da fazenda.

Eusebio estava doente.

Não existia uma saída em que ninguém pagasse algum preço.

Ramiro olhou para Mercedes.

— Se você quiser discutir água, discutimos água. Preço, prazo e condições. Mas casamento não entra nessa conversa.

Mercedes ficou séria.

— Não estou interessada em separar uma coisa da outra.

— Então não temos acordo.

Eusebio se levantou tão depressa quanto sua respiração permitia.

— Você vai colocar tudo em risco por causa de uma mulher que conhece há poucas semanas?

Ramiro olhou novamente para Clara.

Ela esperava que ele dissesse sim.

Esperava que transformasse aquela recusa numa declaração romântica, fazendo dela a responsável por uma escolha que nunca pedira.

Ele não fez isso.

— Não estou recusando Mercedes por Clara — respondeu. — Estou recusando porque não vou me casar para cumprir um acordo comercial.

Clara sentiu alguma coisa dentro dela ceder.

Era uma diferença pequena para quem nunca vivera como ela.

Para Clara, era enorme.

Ramiro não a estava escolhendo como prêmio no lugar de outra mulher.

Estava finalmente escolhendo a si mesmo.

Mercedes pegou as luvas que deixara sobre uma cadeira.

— Muito bem. Então descubra quanto vale essa liberdade quando as parreiras começarem a sofrer.

Antes de sair, parou diante de Clara.

— Espero que tenha valido a pena.

Clara respondeu antes que Ramiro pudesse fazê-lo.

— Eu não pedi que ele fizesse nada por mim.

Mercedes a encarou por um instante e foi embora.

Naquela noite, Clara quase não dormiu.

Quando amanheceu, arrumou a mesma mala de tecido com que chegara a Santa Lúcia.

Colocou dentro os 2 vestidos, a fotografia antiga e as poucas coisas adquiridas durante a vindima.

Dorotea encontrou-a dobrando o avental.

— O que você está fazendo?

— Indo embora.

— Ramiro não mandou você embora.

— Eu sei.

— Então por quê?

Clara passou a mão pela alça da mala.

— Porque conheço esse tipo de história. Se eu ficar, qualquer dificuldade que acontecer aqui vai acabar recebendo meu nome.

Dorotea sentou-se na beirada da cama.

— E se você sair, vai estar fazendo o quê?

Clara não respondeu.

Dorotea continuou:

— Mercedes mandou você embora com meia dúzia de palavras sem sequer precisar ter autoridade para isso.

A frase incomodou Clara.

— Não é tão simples.

— Nunca é. Mas ontem você decidiu partir porque uma mulher disse que você estava de passagem. Hoje está fazendo exatamente o que ela esperava.

Clara fechou a mala.

— Ficar também pode parecer que estou esperando alguma coisa de Ramiro.

— Então não espere.

Dorotea apontou para a cesta de roupas ao lado da parede.

— Você tem trabalho. Foi isso que lhe ofereceram. Trabalho. O resto vocês resolvem quando existir alguma coisa para resolver.

Clara ficou olhando para a cesta.

Pela primeira vez, permanecer parecia mais assustador do que partir.

Talvez exatamente por isso fosse importante.

Ela desfez o nó da mala.

Ramiro soube apenas no fim daquela manhã que Clara decidira ficar.

Não foi procurá-la imediatamente.

Tinha passado horas discutindo com o pai.

Eusebio insistia que a recusa fora irresponsável.

Ramiro insistia que casamento não podia ser condição de um negócio.

Nenhum dos dois convenceu o outro.

Nos dias seguintes, a tensão na casa grande tornou-se impossível de esconder.

Mercedes cumpriu a ameaça inicial e recusou qualquer conversa sobre o uso do poço enquanto o casamento permanecesse fora da mesa.

Ramiro não voltou atrás.

Pela primeira vez, começou a fazer contas considerando a possibilidade de uma temporada menor em vez de procurar uma forma de obedecer ao pai.

Haveria perdas.

Alguns planos precisariam ser adiados.

Talvez parte da produção diminuísse.

Mas a fazenda não desapareceria de um dia para o outro, como Eusebio fazia parecer.

O preço da decisão era real, apenas não era o fim do mundo.

Clara percebeu essa mudança antes que Ramiro falasse com ela sobre o assunto.

Os trabalhadores ouviam rumores.

Alguns culpavam Mercedes.

Outros achavam que Ramiro acabaria cedendo.

Clara mantinha a cabeça baixa e continuava costurando.

Até que, numa tarde, Ramiro apareceu na pequena sala onde ela trabalhava.

— Dorotea disse que você quase foi embora.

— Quase.

— Por que ficou?

Clara passou a linha pela agulha antes de responder.

— Porque percebi que estava deixando Mercedes tomar uma decisão por mim.

Ramiro sorriu de leve.

— Parece que nós dois tivemos a mesma semana.

Ela também quase sorriu, mas ficou séria.

— Quero deixar uma coisa clara.

— Diga.

— Eu não fiquei por você.

Ramiro assentiu.

— Ainda bem.

A resposta a surpreendeu.

— Ainda bem?

— Se tivesse ficado porque achou que me devia alguma coisa, eu teria feito com você a mesma coisa que meu pai tentou fazer comigo.

Clara deixou a agulha sobre a mesa.

Ramiro continuou:

— Fique enquanto quiser trabalhar aqui. Se decidir ir embora, eu não vou impedir. E nada do que eu fizer com Mercedes, meu pai ou a fazenda será uma dívida sua.

Por alguns segundos, Clara não soube o que dizer.

Passara tanto tempo aprendendo a detectar condições escondidas que quase não sabia reconhecer uma escolha quando alguém realmente a oferecia.

— Obrigada — disse por fim.

Era a segunda vez que aquela palavra significava mais do que parecia.

As semanas seguintes não resolveram tudo.

Eusebio continuou irritado.

Sua saúde piorou em alguns dias e melhorou em outros, deixando Ramiro dividido entre a raiva e o medo de perder o pai antes que conseguissem se entender.

Clara, por sua vez, manteve distância da casa grande sempre que podia.

Só que a distância entre ela e Ramiro diminuiu de outras formas.

Ele passou a levar para conserto camisas que provavelmente ainda poderiam durar meses sem reparo.

Ela começou a perceber quando ele esquecia de comer durante dias mais difíceis e deixava um prato separado na cozinha sem admitir que fora ideia sua.

Nenhum dos dois chamava aquilo de cortejo.

Talvez porque ambos soubessem como era perigoso dar nome cedo demais a algo que ainda precisava ser escolhido livremente.

A mudança mais inesperada aconteceu com Eusebio.

Certa manhã, Clara estava atravessando o terreiro quando o encontrou sentado sozinho, tentando recuperar o fôlego.

Ela poderia ter seguido em frente.

Não seguiu.

Aproximou-se devagar.

— Quer que eu chame Ramiro?

Eusebio negou com a cabeça.

— Só preciso de um minuto.

Clara ficou a uma distância respeitosa.

Depois de algum tempo, ele perguntou:

— Você realmente fugiu de casa aos 15?

Clara se surpreendeu.

— Quem contou?

— Dorotea fala demais.

— Às vezes.

Eusebio respirou fundo.

— Foi por causa de um casamento?

Clara percebeu imediatamente onde aquela pergunta levava.

— Minha tia queria me entregar a um homem de 46 anos porque achava que seria bom para a família.

Eusebio abaixou os olhos.

— E você fugiu.

— Antes do amanhecer.

Ele ficou quieto por alguns segundos.

— Deve achar que sou igual à sua tia.

Clara poderia ter escolhido uma resposta gentil.

Não escolheu.

— Naquela noite, achei.

Eusebio recebeu a frase sem protestar.

Ela continuou:

— A diferença é que Ramiro podia dizer não. Eu tinha 15 anos e não podia.

— Ele sempre pôde dizer não.

— Talvez. Mas o senhor passou muitos anos ensinando que dizer não significava abandonar tudo o que importava para ele.

Eusebio levantou os olhos para Clara.

Não havia raiva em seu rosto.

Havia algo mais difícil de suportar: reconhecimento.

— A terra não se abandona por capricho — murmurou.

Clara conhecia a frase porque Ramiro lhe contara.

— Talvez ele nunca tenha querido abandonar a terra.

Eusebio não respondeu.

Dois dias depois, Mercedes voltou.

Dessa vez não usava sorriso impecável nem veio falar com Clara.

Pediu para conversar diretamente com Ramiro.

Eusebio também estava presente.

Mercedes colocou sobre a mesa uma proposta simples: permitiria o uso da água mediante pagamento durante um período determinado.

Não havia casamento.

Não havia promessa de união entre propriedades.

Era um negócio caro, mas era apenas um negócio.

Ramiro leu as condições com atenção.

— O que mudou?

Mercedes não gostou da pergunta.

— Descobri que água parada não me rende nada e que você é mais teimoso do que eu imaginava.

— E o casamento?

— Não tenho interesse em me casar com um homem que precisa ser empurrado até o altar pelo pai.

Eusebio fez uma expressão amarga.

Ramiro quase riu.

Mercedes ergueu a mão.

— Não confunda isso com generosidade. Estou fazendo uma proposta porque me beneficia.

— É exatamente assim que deveria ter começado.

Eles negociaram.

Ramiro não conseguiu todas as condições que queria.

Mercedes também não.

Quando terminaram, Santa Lúcia ainda teria dificuldades, mas a água deixava de depender de um casamento.

Depois que Mercedes saiu, Eusebio permaneceu diante da mesa.

— Você aceitou pagar mais do que eu teria aceitado.

— Sim.

— Isso vai apertar as contas.

— Vai.

— E ainda acha que fez a escolha certa?

Ramiro demorou um pouco para responder.

— Acho que finalmente fui eu quem fez a escolha.

Eusebio olhou para o filho por muito tempo.

Então se levantou e saiu sem discutir.

Naquela noite, chamou Ramiro ao quarto.

Não pediu desculpas de forma bonita.

Eusebio nunca fora um homem de discursos.

Disse apenas que passara a vida inteira acreditando que manter Santa Lúcia viva justificava qualquer sacrifício.

Depois admitiu que havia parado de perceber quando o sacrifício era dele e quando estava impondo o preço aos outros.

Ramiro ouviu.

Não apagou 22 anos de ressentimento em uma conversa.

Também não rejeitou o pai.

Pela primeira vez, os dois falaram como homens que ainda tinham coisas a reparar, não como dono e herdeiro cumprindo papéis antigos.

Quanto a Clara, ninguém mais pediu que partisse.

Meses depois, quando a vindima já era lembrança e as primeiras dificuldades da nova temporada haviam sido enfrentadas, Ramiro a encontrou perto das parreiras com uma cesta de roupas dobradas.

— Posso perguntar uma coisa?

— Depende.

— Você ainda pensa em ir embora?

Clara olhou para a casa, para o alojamento e para as fileiras de terra onde antes imaginara permanecer apenas algumas semanas.

— Às vezes.

Ramiro aceitou a resposta.

— Certo.

Ela franziu a testa.

— Só isso?

— Você disse que às vezes pensa em ir embora. Não disse que queria que eu a convencesse a ficar.

Clara riu.

Foi uma risada pequena, mas Ramiro nunca a tinha ouvido rir daquele jeito.

— E se eu disser que hoje quero ficar?

Ele a encarou.

— Hoje basta.

Foi assim que começou.

Não com um casamento oferecido por outra pessoa.

Não com uma promessa sobre terras ou água.

Não com Clara sendo salva por um homem rico nem Ramiro abandonando tudo por uma mulher que conhecera havia pouco tempo.

Começou com dois adultos aprendendo a não transformar afeto em obrigação.

O relacionamento cresceu devagar.

Clara continuou recebendo pelo próprio trabalho.

Ramiro nunca misturou salário com favores pessoais.

Quando ela passou a jantar algumas noites na casa grande, foi porque queria.

Quando recusava, ninguém perguntava o motivo.

Quando Eusebio começou a tratá-la com mais respeito, Clara aceitou a mudança sem fingir que a primeira crueldade nunca existira.

Houve dias em que ainda dormia com a mala de tecido guardada perto da cama.

Era um hábito antigo.

Durante anos, manter a mala pronta significara segurança: se alguém tentasse decidir sua vida, ela poderia desaparecer antes do amanhecer.

Certa tarde, meses depois, Ramiro entrou na pequena sala de costura e encontrou a mala aberta.

Seu rosto mudou.

— Você vai embora?

Clara olhou para ele.

Depois olhou para a mala.

— Não.

Estava colocando dentro dela retalhos, linhas e pequenos pedaços de tecido que já não cabiam nas caixas.

Ramiro soltou o ar que segurava.

Clara percebeu e sorriu.

— Ainda assusta?

— Um pouco.

— Então vai ter que se acostumar.

— Com você indo embora?

— Com não saber tudo antes de perguntar.

Ramiro se aproximou, mas não tocou nela até Clara estender a mão.

Foi um gesto simples.

Talvez por isso significasse tanto.

Quando, muito tempo depois, Ramiro perguntou se ela aceitaria se casar com ele, não havia ninguém à mesa negociando terras.

Não havia condições.

Não havia poço.

Não havia Eusebio decidindo pelo filho nem uma tia decidindo por Clara.

Ramiro fez a pergunta e ficou esperando.

Clara não respondeu imediatamente.

Ele também não pressionou.

Ela pensou na menina de 15 anos que fugira antes do amanhecer porque aquela tinha sido a única escolha que lhe restara.

Pensou na mulher de 25 anos que chegara a Santa Lúcia com 2 vestidos, uma fotografia antiga e a certeza de que nunca deveria permanecer tempo demais em lugar nenhum.

Então percebeu que ficar já não era o contrário de ser livre.

Desta vez, ficar era justamente a escolha que ninguém podia fazer por ela.

— Sim — respondeu.

Eusebio recebeu a notícia sentado perto da janela.

Sua doença o deixara ainda mais frágil, mas a expressão com que olhou para o filho não tinha nada da autoridade de antes.

— Tem certeza? — perguntou a Clara.

A pergunta a surpreendeu.

Não perguntou a Ramiro.

Perguntou a ela.

Clara assentiu.

— Tenho.

Eusebio fez um gesto curto com a cabeça.

— Então está certo.

Não houve grande reconciliação naquele momento.

Não precisava haver.

Para Clara, bastou perceber que o homem que um dia ajudara a negociar o casamento do próprio filho agora esperava a resposta da mulher antes de considerar qualquer coisa decidida.

Santa Lúcia continuou enfrentando anos bons e ruins.

O acordo de água com Mercedes permaneceu comercial enquanto foi necessário, e nenhum casamento voltou a fazer parte daquela negociação.

Ramiro continuou administrando a fazenda, mas já não confundia permanência com obediência.

E Clara nunca deixou de trabalhar simplesmente porque passou a dividir a vida com ele.

A costura tornou-se uma atividade permanente na fazenda, e ela passou a organizar o próprio serviço, receber por ele e escolher o que aceitava fazer.

Sua antiga fotografia ganhou um lugar numa pequena prateleira.

Os 2 vestidos continuaram guardados por muito tempo.

E a mala de tecido, que durante anos ficara pronta para uma fuga, acabou cheia de linhas, pedaços de pano, botões e agulhas.

Certa manhã, Ramiro precisou de um botão para uma camisa e perguntou onde Clara guardava os materiais.

Ela apontou para a velha mala.

Ele abriu, encontrou o que procurava e deixou a tampa levantada.

Clara passou por ele, fechou a mala tranquilamente e a colocou de volta debaixo da mesa.

Não perto da porta.

Não pronta para partir.

Apenas no lugar onde guardava as coisas que pretendia usar novamente no dia seguinte.

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