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A Cadela Voltou ao Galpão, e a Enchente Ainda Não Tinha Terminado-neyney

Meu irmão se jogou sobre a borda do barco, agarrou a corda presa à minha cintura e puxou enquanto eu enfiava as duas mãos sob a tábua.

A madeira se partiu com um estalo, libertando a perna da cadela, que caiu contra meu peito antes de tentar nadar outra vez.

Passei um braço por baixo dela e empurrei seu corpo em direção à proa.

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Meu irmão segurou a pele solta atrás de seus ombros e conseguiu içá-la para dentro, onde os seis filhotes se amontoavam no cesto plástico.

A mãe tentou se levantar, mas a pata traseira dobrou.

Mesmo assim, ela se arrastou até o cesto e começou a tocar cada filhote com o focinho, contando-os de um jeito que não precisava de números.

Eu ainda estava dentro do galpão quando outra parte do piso cedeu.

A água me puxou para baixo, e a corda apertou tanto minha cintura que perdi o ar.

Meu irmão ligou o motor e acelerou, tentando manter a embarcação junto à abertura quebrada.

A hélice girou duas vezes e parou.

O barco deu um tranco para trás.

O arame da cerca submersa que havia raspado o casco estava enrolado na hélice.

— Sobe agora! — ele gritou.

Apoiei os braços na moldura, mas uma viga caiu entre mim e o barco, espalhando lascas sobre a água.

Meu irmão puxou a corda com as duas mãos.

Passei por baixo da viga no instante em que a parede lateral começou a se abrir.

Ele me agarrou pela camisa e me arrastou para dentro.

O galpão desabou atrás de nós, levantando uma onda que encheu o fundo do barco até nossos tornozelos.

Estávamos todos a bordo, mas sem motor, com o casco preso à cerca e a correnteza nos empurrando na direção do telhado de uma casa quase submersa.

Meu irmão soltou a corda da minha cintura e a amarrou numa travessa do barco antes que eu pudesse perguntar o que ele pretendia fazer.

— Você vai cuidar deles — disse, apontando para o cesto. — Agora eu entro na água.

Segurei seu colete antes que ele pulasse.

— O arame pode estar debaixo da corrente.

— E, se ninguém soltar, o barco vai virar naquela casa.

Ele não falou com raiva.

Isso tornou tudo pior.

A água continuava entrando pela lateral, não porque o casco tivesse aberto, mas porque cada onda passava por cima da borda baixa e trazia lama, folhas e pedaços de palha.

A cadela se deitou ao redor do cesto, protegendo os filhotes com o corpo, embora sua pata machucada tremesse sem parar.

O primeiro filhote que eu havia tirado da correnteza ainda era o mais imóvel.

Esfreguei a toalha sobre seu peito e aproximei o ouvido de seu focinho.

Havia respiração, mas tão fraca que eu só a percebia quando parava de respirar também.

Meu irmão afastou minha mão do colete.

— Prende a outra ponta da corda em mim.

Olhei para o telhado à frente.

A correnteza nos levava de lado, e uma antena torta já estava perto o bastante para raspar a proa.

Passei a corda ao redor do peito dele, dei dois nós e mantive a ponta presa na travessa.

— Se eu puxar uma vez, você me traz de volta.

— E se puxar duas?

— Puxa mais rápido.

Ele desceu pela lateral e desapareceu até os ombros.

O choque da corrente quase arrancou seus pés do fundo, mas ele se segurou na borda e avançou com as mãos pelo casco.

Eu o via tateando sob a água, procurando o eixo da hélice.

A corda esticava e afrouxava conforme o barco girava.

A cadela levantou a cabeça quando ele mergulhou.

Por um segundo, seus olhos acompanharam exatamente o ponto onde meu irmão havia sumido, como se ela entendesse o que a água fazia com quem entrava nela.

Ele emergiu tossindo.

— Está preso em três voltas.

— Dá para soltar?

— Com a mão, não.

Olhei em volta e vi apenas os mantimentos molhados, dois remos, uma caixa de ferramentas incompleta e o cesto dos filhotes.

A faca que usávamos para cortar cordas não estava ali.

Eu a tinha deixado presa no bolso externo da mochila, e a mochila havia sido levada quando a primeira onda atingira o barco perto do galpão.

Meu irmão mergulhou de novo antes que eu pudesse impedi-lo.

O telhado da casa estava agora tão próximo que uma telha solta bateu na lateral e se partiu.

Segurei um dos remos e tentei empurrar a embarcação para longe, mas a ponta escorregava sobre as telhas cobertas de lodo.

Quando consegui firmá-la, uma parte do telhado afundou.

Debaixo das telhas havia um vão escuro.

Então ouvi um som que não vinha da água, do motor nem dos filhotes.

Era uma voz.

— Tem alguém aí? — gritei.

Nenhuma resposta veio de imediato.

Meu irmão emergiu outra vez e se agarrou à borda.

— O que foi?

Levantei a mão pedindo silêncio.

A voz tornou a chamar, mais fraca, de dentro da casa.

— Aqui em cima.

Meu irmão olhou para o telhado e depois para a hélice presa.

O barco não estava apenas sendo empurrado contra uma casa abandonada.

Havia alguém preso ali.

Uma telha se moveu perto da cumeeira, e dedos apareceram por uma abertura estreita.

— Não consigo sair — disse a pessoa. — A escada caiu.

Pelo tamanho da mão e pela voz, parecia um menino, mas a água e o vento distorciam tudo.

— Está sozinho? — perguntei.

— Minha avó está comigo.

Meu irmão fechou os olhos por um instante.

Os seis filhotes estavam vivos, a mãe estava ferida, o motor não funcionava e a corrente havia transformado nosso barco na única coisa flutuante encostada naquela casa.

— Primeiro o arame — ele disse. — Sem motor, não tiramos ninguém daqui.

Abri a caixa de ferramentas.

Havia um alicate pequeno, enferrujado na articulação, que usávamos para apertar terminais da bateria.

Joguei-o para meu irmão.

Ele quase perdeu a ferramenta, mas conseguiu prendê-la contra o peito.

— Isso não corta aquele arame.

— Então desenrola.

— Leva tempo.

Outra parte do telhado cedeu sob o barco.

A proa afundou alguns centímetros e tornou a subir.

— É o que temos.

Ele respirou fundo e mergulhou.

Mantive a corda enrolada no antebraço enquanto chamava a pessoa dentro da casa.

— Qual é o seu nome?

— Caio.

— Caio, fique longe da abertura por um momento, porque o barco pode bater no telhado.

— Minha avó não consegue ficar em pé.

— Ela está respirando normalmente?

Demorou para ele responder.

— Está respirando, mas está com muito frio.

A água dentro da casa devia ter alcançado o forro, obrigando os dois a se espremerem no espaço sob o telhado.

Meu irmão apareceu, puxou o ar e levantou o alicate.

— Soltei uma volta.

O barco girou mais alguns graus.

A corda que o prendia à travessa passou por baixo da lateral, e eu precisei puxá-la antes que se enroscasse também.

A mãe dos filhotes tentou se levantar novamente.

Dessa vez, conseguiu apoiar três patas e se colocou entre o cesto e a água acumulada no fundo.

Uma onda entrou e molhou a toalha.

O filhote mais fraco abriu a boca, mas nenhum som saiu.

Peguei-o nas mãos e o coloquei por dentro da minha camisa, junto ao peito, para aquecê-lo.

Seu corpo era leve demais.

Caio tornou a chamar.

— O teto está quebrando.

— Deite ao lado da sua avó e proteja a cabeça dela.

— Você vai entrar?

Olhei para meu irmão, que já preparava outro mergulho.

— Vou chegar até vocês.

Não sabia ainda como.

Enfiei o remo pela abertura nas telhas e forcei para ampliar o vão.

A madeira sob a cobertura gemeu, mas não cedeu de imediato.

Meu irmão mergulhou mais uma vez.

Usei o peso do corpo sobre o remo até duas telhas se soltarem e deslizarem para a água.

A abertura ficou grande o suficiente para eu enxergar o rosto de Caio.

Ele parecia ter uns doze anos e estava deitado sobre uma viga, com apenas os ombros e a cabeça acima da água escura que preenchia o forro.

Atrás dele, uma mulher idosa permanecia encostada na inclinação do telhado, com os braços apertados contra o corpo.

— O barco está preso — expliquei. — Meu irmão está tentando liberar o motor.

Caio olhou para o cesto e viu a cadela.

— São os cachorros do galpão?

— São.

— Eu levava comida para ela.

A cadela ergueu as orelhas ao ouvir a voz dele.

Ela deu um passo mancando e tentou aproximar o focinho da abertura.

Caio estendeu a mão por entre as telhas quebradas.

— Lua.

A cadela soltou um gemido baixo.

Até aquele momento, ela tinha sido apenas a mãe que voltara para buscar os filhotes.

Agora tinha um nome, e o menino preso sob o telhado era parte da razão pela qual ela permanecera perto daquele galpão mesmo com a água subindo.

— Ela está machucada? — ele perguntou.

— Na pata, mas conseguiu salvar um dos filhotes sozinha.

O rosto de Caio mudou, não para alívio, mas para uma espécie de decisão.

— Tem uma portinhola no outro lado do telhado.

— Consegue alcançá-la?

— Eu consigo, mas minha avó não passa pela viga.

— Não se afaste dela ainda.

Meu irmão emergiu, puxando um pedaço de arame retorcido.

— Duas voltas.

Antes que eu respondesse, ele colocou a mão no casco e ficou imóvel.

— A última está presa entre a hélice e o suporte.

— Usa o alicate.

— A ponta quebrou.

Ele abriu a mão.

Metade da ferramenta permanecia entre seus dedos.

A casa estremeceu quando algo pesado atingiu a parede submersa.

Caio gritou de dentro do telhado.

Lua tentou avançar e quase caiu.

Segurei-a pela pele do pescoço e a fiz deitar junto ao cesto.

Meu irmão olhou para os dois remos.

— Se cortarmos um deles, talvez a lâmina de metal da proteção sirva como cunha.

Os remos eram nossa única forma de conduzir o barco caso o motor não voltasse.

— Faça isso.

Ele subiu pela lateral, pegou a pequena marreta da caixa e bateu na peça metálica presa à ponta de um remo.

A cada golpe, o barco se movia mais perto da abertura onde Caio esperava.

A peça se soltou após a quarta batida.

Meu irmão guardou a tira de metal entre os dentes e voltou para a água.

Eu prendi a ponta da corda ao redor do braço e me deitei sobre a borda para acompanhá-lo.

Ele mergulhou.

Cinco segundos.

Dez.

Quinze.

A corda se esticou de repente.

Uma puxada.

Comecei a trazê-lo de volta, mas a linha travou sob o casco.

Puxei com as duas mãos.

Nada.

Então vieram duas puxadas rápidas.

Larguei o remo, passei a corda por cima da travessa e usei o corpo inteiro como contrapeso.

A linha cedeu alguns centímetros.

Meu irmão surgiu do outro lado da popa, sem a tira de metal e sem ar.

Agarrei seu colete e o puxei até que seu peito ficasse sobre a borda.

Ele tossiu água dentro do barco.

— Soltou — disse quando conseguiu respirar. — Liga.

Corri até o motor.

A primeira tentativa produziu apenas um clique.

Na segunda, a hélice girou e fez o barco estremecer.

Na terceira, o motor pegou.

A força da corrente empurrou a popa, mas meu irmão tomou o leme e acelerou o suficiente para manter a embarcação parada junto ao telhado.

Não podíamos ir embora.

Caio e a avó ainda estavam dentro.

Meu irmão mantinha o motor trabalhando contra a água enquanto eu ampliava a abertura com o remo restante.

— Tire o menino primeiro — ele disse.

Caio ouviu e balançou a cabeça.

— Minha avó primeiro.

— Ela não consegue passar pela viga — respondi.

— Então eu ajudo por dentro.

Ele mergulhou no espaço estreito do forro antes que eu pudesse detê-lo.

Por alguns segundos, vi apenas as mãos da avó procurando apoio na madeira.

Caio reapareceu atrás dela, sustentando-a pelos braços.

— Tem um prego aqui — ele avisou. — A roupa dela está presa.

A água subia e descia dentro do forro com cada impacto da corrente.

Estiquei o braço pela abertura, mas não alcançava o tecido.

Lua tornou a se levantar.

Ela olhava para Caio e choramingava, inquieta, como se reconhecesse o perigo no movimento da água.

O menino soltou a roupa da avó puxando-a com tanta força que parte da manga rasgou.

Depois empurrou o corpo dela na direção da abertura.

Segurei a mulher pelos antebraços.

Ela estava consciente, mas seus dedos eram frios e rígidos.

— Não solte meu neto — murmurou.

— Ele vem logo atrás.

Com meu irmão mantendo o barco firme, consegui passar um braço ao redor da cintura dela e puxá-la por cima das telhas.

Ela gemeu quando as pernas atravessaram o vão, mas não havia ferimento visível além de cortes superficiais.

Deitei-a no fundo do barco, junto à lateral mais seca, e cobri seus ombros com a parte da toalha que não estava envolvendo os filhotes.

Caio começou a subir.

Foi quando o motor perdeu força.

O barco recuou meio metro.

A abertura no telhado se afastou, deixando o menino pendurado pela ponta dos dedos.

Meu irmão acelerou, mas a hélice parecia patinar em meio aos detritos.

— Pula! — gritei.

Caio olhou para a água entre o telhado e o barco.

Lua latiu pela primeira vez.

O som foi rouco, curto e forte o suficiente para fazê-lo olhar diretamente para ela.

— Pula para a Lua! — eu disse.

Ele soltou a telha.

Seu corpo atingiu a lateral do barco, e consegui agarrar um dos braços, mas a corrente puxou suas pernas para baixo.

Meu irmão deixou o leme por um segundo e segurou o outro braço.

Juntos, nós o arrastamos para dentro.

O barco girou sem controle enquanto o motor continuava ligado.

A popa bateu no telhado, arrancando mais telhas, e depois se soltou.

Meu irmão voltou ao leme.

— Todo mundo abaixado!

Acelerou na direção oposta à corrente, procurando um trecho onde a água estivesse menos carregada de madeira.

Caio caiu de joelhos ao lado da avó.

Ela tocou seu rosto, verificou se ele estava inteiro e só então permitiu que os olhos se fechassem por alguns segundos.

Lua se arrastou até o menino.

Caio colocou a mão sobre a cabeça dela.

— Eu achei que você tivesse ido embora.

A cadela encostou o focinho molhado em seu pulso.

O filhote dentro da minha camisa se mexeu.

Foi um movimento pequeno, quase uma contração, mas depois veio um som fino e irregular.

Lua levantou a cabeça imediatamente.

Retirei o filhote com cuidado e o coloquei junto aos outros.

A mãe cheirou seu corpo, virou-o com o focinho e começou a lambê-lo.

A respiração dele ficou mais rápida.

Caio sorriu pela primeira vez.

— Esse é o menor — disse. — Eu vi quando nasceram.

— Você cuidava deles?

— Levava comida para a Lua porque o dono do galpão tinha ido ficar com parentes quando a água começou a subir.

A avó abriu os olhos.

— Ele saía escondido para alimentar essa cadela.

Caio abaixou a cabeça, esperando uma bronca.

Ela apenas apertou a mão dele.

— E hoje ela voltou para buscar os filhos — meu irmão disse.

Caio olhou para o cesto.

— Ela sempre volta.

Seguimos contra a corrente por alguns minutos, desviando de móveis, galhos e pedaços de cercas.

O motor engasgava sempre que algum detrito passava perto da hélice, e meu irmão reduzia a velocidade para evitar que ficássemos presos outra vez.

Eu mantinha a avó de Caio coberta e verificava a respiração dos filhotes.

Lua não tirava os olhos do cesto.

Quando um deles se afastava dos outros, ela o empurrava de volta com o focinho, mesmo que isso a obrigasse a apoiar a pata ferida.

— Não deixa ela fazer força — Caio pediu.

Ele se sentou ao lado da cadela e manteve o braço diante de seu peito para impedir que ela se levantasse.

A água começou a ficar menos veloz quando alcançamos uma rua mais larga, onde algumas construções altas quebravam a força da corrente.

Havia pessoas reunidas numa laje, acenando com panos e apontando para um acesso onde outros barcos conseguiam se aproximar.

Meu irmão conduziu a embarcação até uma área protegida por um muro comprido.

Duas pessoas entraram na água rasa para segurar a proa.

Primeiro tiramos a avó de Caio.

Depois, o menino desceu, mas se recusou a se afastar enquanto Lua e os filhotes permaneciam no barco.

— Eles vêm comigo — disse.

A avó, ainda tremendo, estendeu a mão para ele.

— Eles vêm conosco.

Usamos o próprio cesto plástico para transportar os seis filhotes.

Lua tentou acompanhar, mas não conseguia apoiar a pata.

Meu irmão e eu cruzamos os braços por baixo de seu corpo e a carregamos juntos.

Ela não se debateu.

Manteve o focinho voltado para o cesto o tempo inteiro.

Num espaço coberto onde as famílias se abrigavam, colocaram cobertores ao redor da avó e examinaram a perna de Lua.

Não parecia quebrada, mas havia um corte profundo e muito inchaço.

Uma pessoa que ajudava no atendimento improvisou uma tala leve e orientou que a cadela permanecesse deitada até poder ser levada para avaliação adequada.

Caio sentou no chão ao lado dela.

Eu esperava que, depois de tudo, meu irmão reclamasse da minha decisão de entrar no galpão.

Ele permaneceu em silêncio enquanto retirava lama da corda e examinava os nós desfeitos.

Quando terminou, aproximou-se de mim.

— Quando você disse para eu não deixar o barco se afastar, achei que estava pedindo para eu ficar parado enquanto você resolvia tudo.

Olhei para as marcas vermelhas que a corda havia deixado nas mãos dele.

— Eu só sabia que precisava entrar.

— Eu sei.

Ele apontou para Caio, para a avó, para Lua e para o cesto.

— Mas não foi você sozinho que tirou todo mundo de lá.

A frase não soou como acusação.

Soou como algo que ele precisava que eu entendesse antes da próxima correnteza, do próximo galpão ou da próxima decisão tomada em poucos segundos.

— Não — respondi. — Não foi.

O menor dos filhotes começou a chorar.

Lua tentou alcançá-lo, mas Caio pegou o cesto e o aproximou dela.

A cadela se acomodou ao redor dos seis, formando uma barreira com o próprio corpo.

O filhote que quase desaparecera na água encontrou espaço junto à barriga da mãe e começou a mamar.

Um após outro, os demais fizeram o mesmo.

A tensão no corpo de Lua diminuiu pela primeira vez desde que a vimos nadando contra a corrente.

Caio colocou a mão sobre a borda do cesto.

— Foi aqui que vocês trouxeram mantimentos?

— Foi — meu irmão respondeu.

— E agora trouxe eles.

O plástico estava rachado perto de uma das alças, sujo de lama e marcado pelo impacto contra a janela do galpão.

Ainda assim, sustentava todos os filhotes.

Nas horas seguintes, a água começou a baixar devagar, deixando uma camada grossa de barro sobre as ruas e revelando o que havia sido arrastado.

O galpão não existia mais.

Parte da casa de Caio havia cedido, e o telhado onde o encontramos estava inclinado sobre a parede lateral.

Nada disso podia ser recuperado naquele dia.

Mas a avó dele estava aquecida, o menino não se afastava de Lua e os seis filhotes continuavam respirando dentro do cesto.

Quando finalmente nos preparávamos para sair, meu irmão enrolou a corda que tinha prendido primeiro à minha cintura e depois ao próprio peito.

Ele deixou de lado o trecho mais gasto, cortado pelo atrito contra o casco, e guardou o restante no barco.

— Essa ainda serve? — perguntei.

Ele testou a fibra entre os dedos.

— Serve, desde que ninguém ache que uma ponta trabalha sem a outra.

Caio ouviu e olhou para a avó.

Ela segurava o cesto com os pés enquanto Lua descansava ao lado, impedindo que ele deslizasse sobre o piso.

Meu irmão pegou uma das alças rachadas.

Eu segurei a outra.

Juntos, levamos os seis filhotes para um lugar seco, e Lua avançou mancando entre nós, tocando o cesto com o focinho a cada poucos passos para ter certeza de que nenhuma vida havia ficado para trás.

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