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A Cadela Bateu Três Vezes no Telhado — E Alguém Respondeu-neyney

— Tem alguém lá embaixo — eu disse, levantando a cabeça da telha. — E respondeu exatamente como ela.

Joana não perguntou se eu tinha certeza, porque Nina já havia erguido a pata outra vez e permanecia olhando para a fresta, esperando que entendêssemos o que precisava ser feito.

Peguei a machadinha presa ao fundo do barco, mas a pastora-alemã se colocou entre a lâmina e a parte afundada do telhado.

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— Calma, menina. Eu não vou machucar quem está aí.

Nina recuou apenas quando comecei a remover as telhas com as mãos, uma de cada vez, evitando golpear a estrutura sem saber a distância entre a cobertura e a pessoa presa.

A primeira telha saiu inteira.

A segunda se partiu no meio.

Quando levantei a terceira, um sopro abafado escapou da abertura junto com cheiro de madeira úmida, poeira e água parada.

— Está me ouvindo? — gritei.

Uma voz muito fraca respondeu de dentro.

— Nina?

A cadela tentou enfiar o focinho pela abertura, e naquele instante o nome no verso da plaquinha deixou de ser apenas uma possibilidade.

Davi estava vivo.

Eu ainda não conseguia vê-lo, mas agora sabia que ele se encontrava dentro do espaço estreito do sótão, separado de nós por ripas, isolamento encharcado e uma parte do forro que havia cedido.

Joana tornou a ligar o motor para manter o barco alinhado contra a correnteza, enquanto eu ampliava a abertura com golpes curtos e controlados.

Cada pedaço removido fazia o telhado estremecer, e a água que já passava sobre a calha começava a correr em filetes entre as telhas.

— Davi, vou abrir uma passagem — avisei. — Proteja o rosto e não tente se levantar.

— Não consigo levantar.

A resposta veio tão baixa que quase se perdeu sob o barulho do rio.

Retirei outra ripa e finalmente enxerguei a luz da minha lanterna refletida em dois olhos arregalados.

Davi parecia ter cerca de onze anos.

Estava deitado de lado sobre algumas caixas esmagadas, com a cabeça apoiada num pedaço de colchão e a perna direita presa sob uma viga inclinada.

A água já alcançava seu peito.

Nina soltou o primeiro som desde que havíamos chegado, não um latido, mas um gemido curto e rouco que fez Davi erguer a mão na direção dela.

— Eu sabia que você não tinha ido embora — murmurou.

Estendi o braço pela abertura, mas meus dedos ficaram a quase meio metro dos dele.

— Vou tirar você daí, Davi. Preciso que me diga onde a viga está apoiada.

Ele apontou para o lado que eu não conseguia ver.

— Caiu da parede quando a escada quebrou. Se eu puxar a perna, ela desce mais.

Tentei mover a madeira pela extremidade visível, mas ela nem sequer cedeu.

Não era apenas o peso da viga que o prendia.

Parte do telhado estava apoiada nela.

Se eu serrasse ou levantasse no ponto errado, poderia soltar toda a cobertura sobre Davi antes que conseguíssemos alcançá-lo.

Joana olhou para a água, depois para a chaminé onde nossa corda estava presa.

— O nível subiu quase um palmo desde que chegamos.

Uma cadeira bateu contra a lateral da casa e desapareceu sob a correnteza.

O impacto fez uma fileira de telhas deslizar para dentro da água, deixando exposta uma faixa escura de madeira entre mim e Nina.

— Quanto tempo temos? — perguntei.

— Menos do que precisamos.

Davi começou a tossir.

Nina baixou o corpo junto à abertura, tentando aproximar o focinho da mão dele, mas a distância ainda era grande demais.

— Ela subiu para pedir ajuda — disse o menino. — Eu mandei ela sair quando a água entrou. Depois ouvi ela andando em cima de mim.

— Continue falando comigo — pedi. — Não feche os olhos.

— Estou com frio.

Tirei uma manta térmica do bolso traseiro do colete e a empurrei pela abertura, orientando Davi a enrolá-la sobre os ombros sem mexer a perna.

Enquanto ele obedecia, Nina se afastou repentinamente.

A cadela atravessou o telhado até a parte mais alta, contornou a chaminé e começou a arranhar outra fileira de telhas, quase dois metros atrás de mim.

— Nina! — Davi chamou.

Ela não voltou.

Arranhou o mesmo ponto com mais força e depois bateu três vezes.

Tum.

Tum.

Tum.

Davi virou o rosto na direção do som.

— É o outro lado da viga.

Olhei pela abertura e tentei imaginar a estrutura que permanecia escondida entre nós.

Se Nina estava sobre a extremidade oposta, talvez pudéssemos levantar a madeira dali sem pressionar ainda mais a perna de Davi.

Prendi a machadinha no cinto, rastejei sobre o telhado e comecei a remover as telhas onde a cadela havia indicado.

Joana ajustou a posição do barco para acompanhar meu movimento, mas a corda presa à chaminé rangeu com tanta força que os tijolos da base começaram a se separar.

— Não confio mais nesse ponto — ela avisou.

— Preciso de dois minutos.

— Nós não temos dois minutos presos aqui.

Ela estava certa, mas Davi também não tinha dois minutos sozinho naquela água.

Abri um segundo vão e encontrei a extremidade da viga encaixada entre duas travessas, como uma alavanca torcida pelo peso do telhado.

Havia espaço suficiente para passar uma corda ao redor da madeira, mas não para levantá-la apenas com os braços.

Voltei ao barco e peguei o cabo mais grosso que carregávamos.

Joana entendeu antes que eu explicasse.

— Você quer usar o barco para puxar a viga.

— Só alguns centímetros.

— Se ela soltar de uma vez, leva o telhado junto.

— Se não levantarmos, a água chega ao rosto dele.

Joana observou a corrente, a inclinação da casa e o trecho de parede que ainda permanecia em pé.

Depois colocou o motor em ponto morto.

— Passe o cabo e me dê um sinal com a mão. Nada de gritar, porque eu talvez não escute.

Rastejei novamente até o segundo vão, enfiei o cabo por baixo da viga e fiz uma volta dupla, mantendo o nó longe da parte quebrada.

Nina acompanhou cada movimento, mas não tentou se aproximar da corda.

Ela parecia saber que aquele pedaço de madeira sustentava o pouco espaço que ainda restava ao menino.

Voltei para perto da primeira abertura e expliquei o plano a Davi.

— Quando a viga subir, você vai puxar a perna para o peito. Não tente sair sozinho. Eu vou segurar seus ombros.

— E a Nina?

— Ela vai conosco.

— Promete?

— Prometo.

Ele assentiu, embora o medo em seu rosto mostrasse que não sabia se ainda acreditava em promessas feitas dentro de uma casa prestes a desaparecer.

Apoiei o peito na borda da abertura, passei os braços por baixo dos ombros dele e ergui uma mão para Joana.

Ela engatou o motor devagar.

O cabo ficou reto.

A viga gemeu dentro do telhado.

Levantei dois dedos, pedindo mais força.

O barco avançou alguns centímetros contra a correnteza, e a madeira começou a subir.

— Agora, Davi!

Ele puxou a perna, mas gritou antes de conseguir libertá-la.

A viga havia se movido, porém uma tábua quebrada continuava prendendo o tecido da calça junto ao tornozelo.

— Está presa! — ele chorou.

Mantive um braço ao redor de seu peito e tentei alcançar a tábua com a outra mão.

Meus dedos tocaram a ponta da madeira, mas não conseguiam afastá-la.

Então a corda da chaminé se rompeu.

O barco foi lançado para trás pela correnteza, o cabo preso à viga esticou com violência e Joana precisou acelerar para evitar que a embarcação girasse de lado.

A extremidade da viga subiu mais do que planejávamos.

O telhado inteiro estalou.

Por um instante, achei que a casa fosse se abrir ao meio.

— Solta o cabo! — gritei.

Joana não podia me ouvir, mas viu meu braço descendo e cortou a aceleração.

O barco voltou a ser empurrado contra a casa.

A viga desceu alguns centímetros, parando pouco acima da perna de Davi.

Não teríamos outra tentativa.

A água alcançou o queixo do menino quando uma onda entrou pelas janelas e subiu pelo forro quebrado.

Davi ergueu o rosto, buscando ar.

Nina se deitou ao lado da abertura e esticou uma das patas para dentro.

As unhas tocaram a manta térmica sobre o ombro dele.

— Olha para ela — ordenei. — Não olha para a água. Olha para a Nina.

Davi fixou os olhos na cadela.

— Três vezes — ele disse, tremendo. — Faz três vezes para mim.

Nina bateu a pata na borda da abertura.

Tum.

Tum.

Tum.

Davi respirou fundo.

Usei a machadinha para cortar a tábua que prendia sua calça, tomando cuidado para manter a lâmina distante do tornozelo.

No segundo golpe, o tecido se soltou.

Puxei o menino para cima no exato instante em que a viga desceu e esmagou as caixas onde ele estava deitado.

Ele atravessou a abertura de lado, arranhando os braços nas ripas, e caiu sobre o telhado com a perna dobrada contra o corpo.

Nina cobriu seu rosto de lambidas antes mesmo que eu conseguisse verificar se ele respirava direito.

— Estou aqui — Davi repetia, segurando o pescoço dela. — Estou aqui, estou aqui.

Uma parte da parede lateral desabou dentro da correnteza.

O impacto inclinou o telhado e fez o barco bater contra a casa.

Joana apontou para a embarcação.

Não precisávamos discutir.

Passei o braço de Davi ao redor do meu pescoço e o arrastei até a borda, enquanto Nina caminhava tão perto dele que várias vezes precisei afastá-la para não tropeçarmos juntos.

Joana recebeu o menino e o deitou no fundo do barco.

Quando tentei embarcar, Nina recuou.

Por um segundo terrível, ela voltou para a abertura que havia protegido desde o início.

— Nina, acabou! — Davi chamou.

A cadela olhou para o buraco, cheirou a água que já transbordava por ele e bateu uma vez com a pata.

Nenhuma resposta veio de dentro.

Então ela se virou e saltou para o barco.

Joana acelerou antes que eu terminasse de soltar o cabo preso à viga, obrigando-me a cortá-lo com a lâmina da machadinha.

A corrente nos levou alguns metros para o lado, e ela corrigiu a direção até apontarmos para a rua transformada em rio.

Atrás de nós, o telhado afundou primeiro no centro.

A chaminé tombou, a estrutura dobrou sobre o espaço onde Davi estivera preso e, em poucos segundos, restaram apenas telhas, madeira e a parte superior de uma parede acima da água.

Davi viu a casa desaparecer sem dizer nada.

Nina se deitou sobre ele, ignorando a água que escorria de seu pelo, e manteve a cabeça apoiada no peito do menino durante todo o caminho.

A perna de Davi estava machucada, mas não parecia quebrada.

Ele tinha cortes nos braços, sinais de frio intenso e uma faixa avermelhada no tornozelo onde a madeira o havia prendido.

Joana entregou o controle do barco por alguns segundos enquanto envolvia os dois com outra manta.

— Como você foi parar no sótão? — ela perguntou.

Davi demorou a responder.

— A água entrou muito rápido. Eu estava com a Nina no quarto quando ouvi a porta dos fundos quebrar. Tentei subir a escada, mas ela caiu antes de eu chegar ao alto.

Ele contou que conseguiu se agarrar a uma prateleira e alcançar a abertura do sótão, mas uma parte da parede cedeu logo depois, lançando a viga sobre sua perna.

Nina havia permanecido ao lado dele enquanto a água subia.

Quando já não havia espaço para os dois sobre as caixas, Davi encontrou uma passagem estreita entre o forro e a lateral do telhado e empurrou a cadela para lá.

— Eu mandei ela procurar uma saída — disse. — Mas achei que ela tivesse ido embora.

— Ela encontrou uma saída — respondi. — Só não usou para abandonar você.

Davi passou os dedos pela coleira molhada e tocou a plaquinha de metal.

A peça estava torta, provavelmente por ter batido nas telhas enquanto Nina corria sobre a cobertura.

— Meu pai colocou meu nome atrás — explicou. — Disse que, se ela se perdesse, todo mundo saberia para quem precisava devolver.

Ele apertou a plaquinha na palma da mão.

— Mas foi ela que fez vocês me devolverem.

O ponto de apoio mais próximo funcionava em um prédio alto que ainda estava seco, onde moradores resgatados recebiam cobertores, água e atendimento inicial.

Assim que encostamos, Davi foi colocado numa maca, mas se recusou a soltar a coleira.

Nina caminhou ao lado dele, mantendo o focinho próximo à sua mão, até que permitiram que permanecesse junto ao colchão onde examinariam sua perna.

Foi ali, enquanto tentavam aquecê-lo, que descobrimos por que a cadela havia batido três vezes.

Davi contou que tinha medo de tempestades desde pequeno.

Quando os trovões começavam, ele costumava se esconder dentro do guarda-roupa, e Nina o procurava pela casa.

O pai havia criado um sinal simples para que a cadela encontrasse o menino sem que ele precisasse gritar.

Três batidas na parede significavam estou aqui.

Nina seguia o som, arranhava a porta e esperava três batidas de volta antes de se afastar.

Naquela tarde, debaixo do telhado, Davi havia usado o mesmo sinal até perder a força.

Quando a cadela alcançou as telhas, passou a repetir as batidas sobre o ponto exato onde o menino estava preso.

Ela não latia porque o vento engolia o som e porque, durante anos, aprendera que deveria esperar uma resposta antes de mudar de lugar.

Por isso voltava sempre à mesma telha.

Por isso resistia quando tentávamos colocá-la no barco.

Por isso bateu três vezes, esperou e bateu de novo quando percebeu que eu ainda não havia compreendido.

A casa não deixou quase nada para ser recuperado depois que a água baixou.

O pai de Davi, que trabalhava longe e ficara isolado do outro lado da região alagada, conseguiu chegar ao abrigo apenas na manhã seguinte.

Ele entrou procurando o filho entre dezenas de colchões, mas foi Nina quem o reconheceu primeiro.

A cadela se levantou de um salto, correu pelo corredor e parou diante dele, latindo pela primeira vez desde o resgate.

O homem caiu de joelhos, abraçou Nina e depois seguiu a coleira que Davi ainda segurava até o colchão.

Nenhum dos dois conseguiu falar por vários segundos.

Davi apenas abriu a mão e mostrou a plaquinha torta.

— Ela trouxe todo mundo até mim — disse.

A recuperação da perna levou semanas, e a família permaneceu em alojamentos temporários até encontrar outra casa.

Joana e eu os vimos novamente quando fomos devolver alguns objetos recolhidos do barco, entre eles um pedaço do cabo cortado, a manta rasgada e a plaquinha de Nina, que havia se soltado da coleira durante o desembarque.

O pai de Davi poderia ter substituído a peça por uma nova, mas preferiu endireitá-la com cuidado, mantendo os riscos feitos pelas telhas.

Na frente ainda se lia NINA.

No verso, apesar de uma marca atravessar a última letra, ainda estava gravado DAVI.

Meses depois, eles se mudaram para uma casa pequena em uma rua mais alta.

Na primeira vez que Davi entrou, caminhava sem apoio, embora ainda mancasse levemente quando tentava apressar o passo.

Nina permaneceu do lado de fora por alguns segundos, observando a porta desconhecida, como se precisasse ter certeza de que aquele lugar não desapareceria sob suas patas.

Davi colocou a mão no batente de madeira.

Tum.

Tum.

Tum.

Nina ergueu as orelhas.

Desta vez, não havia água subindo, telhas cedendo ou uma voz presa do outro lado.

O menino abriu a porta e esperou.

Nina cruzou o batente, encostou o focinho na mão dele e entrou na casa que os dois começariam novamente juntos.

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