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A Dívida Que Jogaram Aos Pés de Nash Escondia Uma Verdade Pior-neyney

Nash soltou a última volta da corda e compreendeu, pelo jeito como a jovem protegeu o pequeno retalho preso ao pulso, que o perigo não terminaria com a liberdade dela.

Aquelas marcas não eram apenas consequência de uma captura.

E o pedaço de tecido não estava ali por acaso.

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Ele recuou assim que terminou de cortar as amarras, deixando a faca sobre a terra entre os dois.

A jovem esfregou os pulsos avermelhados, mas não tentou pegar a lâmina.

Também não correu.

Primeiro olhou na direção por onde Hank Crow, Silas Dunn e Charlie Pemberton tinham desaparecido.

Depois examinou o rancho, o poço, a casa baixa e o cavalo de Nash preso perto da cerca.

Só então voltou os olhos para ele.

Nash entendeu o cálculo silencioso.

Ela ainda não sabia se tinha sido libertada ou apenas transferida de mãos.

Por isso ele não avançou.

Pegou o cantil que estava pendurado ao lado do poço, colocou-o no chão, longe o bastante para que ela pudesse alcançá-lo sem se aproximar dele, e se afastou mais dois passos.

— A água é sua — disse.

A jovem ficou imóvel por alguns segundos.

Então se abaixou, pegou o cantil e bebeu pouco, como alguém acostumado a pensar no próximo quilômetro antes de gastar o que tinha.

Nash apontou para o tecido preso entre as fibras cortadas da corda.

— Aquilo é seu?

Ela baixou os olhos.

Pela primeira vez, a raiva no rosto deu lugar a outra coisa.

Urgência.

Com cuidado, ela puxou o retalho.

Era estreito, rasgado de uma peça maior e coberto de poeira, mas uma das bordas tinha uma costura grossa feita com linha escura.

Nash conhecia aquela costura.

Não porque pertencesse a algum povo ou uniforme específico.

Conhecia porque já a tinha visto dois dias antes.

Num saco de provisões deixado perto da passagem do cânion.

Ele tinha encontrado o saco durante uma ronda atrás de uma novilha desgarrada.

Na ocasião, pensara que algum viajante tivesse perdido mantimentos.

Agora percebeu que não fazia sentido.

O tecido era igual.

A jovem viu a mudança em seu rosto.

— Onde? — perguntou, com a voz áspera.

Era a primeira palavra clara que dizia a ele.

Nash apontou para o oeste.

— Perto da passagem estreita. Dois dias atrás.

Ela se levantou rápido demais.

As pernas falharam por um instante, mas ela recuperou o equilíbrio antes que Nash pudesse oferecer ajuda.

— Não leito seco — disse ela.

Nash assentiu.

Hank tinha afirmado que os três a haviam encontrado perto de um leito seco.

Se aquele pedaço de tecido vinha do cânion, a história deles já estava quebrada.

Mas a jovem balançou a cabeça com força, como se ele ainda estivesse entendendo pouco demais.

Ela apontou para o retalho.

— Bolsa.

Depois apontou para o oeste.

— Lá.

Nash pensou no saco abandonado.

— Tinha mais alguém com você?

Ela demorou a responder.

Olhou para a trilha.

Olhou para o cavalo.

E enfim disse:

— Meu irmão.

Duas palavras mudaram tudo.

Até então, Nash podia imaginar que Hank e os outros tinham cometido um ato cruel e fugido antes que alguém os confrontasse.

Agora havia outra pessoa desaparecida.

Talvez ferida.

Talvez presa.

Talvez ainda esperando que ela voltasse.

Nash caminhou até a sela, mas parou antes de tocar no cavalo.

— Se formos até lá, eles podem estar esperando.

Ela respondeu sem hesitar:

— Eu vou.

— Você mal consegue ficar de pé.

— Eu vou.

Nash olhou para os pulsos machucados dela.

— Sozinha?

A jovem encarou a faca ainda caída no chão.

Depois olhou diretamente para ele.

— Eu já estava sozinha.

A frase não veio como acusação.

Isso a tornou pior.

Nash percebeu que qualquer tentativa de decidir por ela, mesmo com boa intenção, repetiria exatamente o tipo de escolha que outros homens já tinham feito em seu lugar.

Então mudou a pergunta.

— Você quer que eu vá junto?

Ela estudou o rosto dele por alguns segundos.

— Sim.

Foi a primeira escolha que Nash lhe devolveu.

E foi também a escolha que o colocou dentro do problema.

Ele trouxe um segundo cavalo, deixou que ela mesma segurasse as rédeas e colocou água e comida numa sacola simples.

Não perguntou seu nome enquanto ela montava.

Esperou.

Quando já estavam deixando o rancho, ela falou sem olhar para ele:

— Lena.

Nash apenas assentiu.

— Nash.

Ela quase pareceu irritada.

— Eu sei.

Hank tinha gritado o sobrenome dele diante dela.

Nash percebeu a própria distração e, por um instante, Lena teve uma expressão que chegava perto de um sorriso.

Durou pouco.

A trilha para o cânion exigia atenção.

O vento empurrava poeira pela encosta, apagando marcas recentes, mas Nash ainda reconhecia sinais suficientes para perceber que três cavalos tinham passado pela região mais de uma vez.

Não era uma rota de viajantes perdidos.

Era um caminho repetido.

Lena percebeu quando ele desmontou perto de uma área de pedras e tocou duas marcas no chão.

— Eles voltavam — disse Nash.

Ela respondeu:

— Três vezes.

Nash levantou os olhos.

Lena apontou para diferentes trechos do caminho.

Havia conhecido aquela trilha antes de ser amarrada.

Isso significava que Hank, Silas e Charlie não tinham simplesmente encontrado uma desconhecida por acaso.

Eles a tinham seguido.

A primeira explicação deles acabava ali.

Mas a segunda verdade ainda estava escondida.

Quando chegaram perto da passagem estreita, Lena desmontou antes de Nash.

Ela encontrou o saco rasgado quase imediatamente.

O tecido havia sido cortado de uma aba lateral.

Ela apertou o retalho contra a borda restante.

Encaixava perfeitamente.

Dentro do saco havia apenas um punhado de farinha derramada, uma tira de couro e um recipiente vazio.

Nada que explicasse por que três homens teriam perseguido duas pessoas por quilômetros.

Nash examinou as pedras ao redor.

— Eles procuravam alguma coisa.

Lena não respondeu.

Essa ausência de resposta chamou mais atenção do que qualquer palavra.

Nash se levantou devagar.

— O que tinha na bolsa?

Ela fechou os dedos em torno do tecido.

— Não era deles.

— Eu não perguntei de quem era.

Lena sustentou o olhar dele.

— Ainda não sei se posso contar.

Nash aceitou aquilo.

— Então não conte.

Ela pareceu surpresa.

Ele apontou para as marcas no chão.

— Mas se seu irmão está aqui, precisamos encontrá-lo antes que eles voltem.

Seguiram por uma abertura estreita entre as rochas.

A poucos metros, encontraram o primeiro sinal de luta: terra revolvida, uma correia rompida e marcas de botas descendo para uma depressão protegida do vento.

Lena acelerou.

Nash chamou seu nome.

Ela não parou.

Na parte mais baixa, havia uma pequena sombra formada pela rocha.

E nela estava um homem jovem, sentado contra a parede de pedra com uma das pernas estendida.

Vivo.

Quando viu Lena, tentou se levantar.

Ela correu até ele.

Nash permaneceu atrás.

Não precisava entender as palavras rápidas que os dois trocaram para perceber o alívio.

O irmão segurou o rosto dela por um instante e depois viu as marcas nos pulsos.

A expressão mudou.

Ele olhou para Nash.

Lena imediatamente se colocou entre os dois.

— Ele cortou as cordas.

O irmão relaxou apenas um pouco.

Chamava-se Tomas.

Não conseguia andar bem por causa de uma torção grave no tornozelo, mas estava consciente e tinha água suficiente para aguentar mais algum tempo.

Nash examinou o abrigo.

— Eles deixaram você aqui?

Tomas respondeu depois de ouvir Lena repetir a pergunta de maneira mais simples.

— Eu caí. Eles levaram ela.

— E por que não voltaram por você?

Tomas olhou para Lena.

Ela respondeu:

— Porque pensaram que eu estava com o que queriam.

Ali estava a segunda virada.

Hank e seus companheiros não tinham capturado Lena para pagar uma dívida absurda.

O gesto no rancho tinha sido uma manobra.

Eles acreditavam que ela escondia alguma coisa e queriam se livrar dela perto de alguém que pudesse ser responsabilizado depois.

Nash lembrou das palavras de Hank: dívida paga.

Naquele momento, a frase ganhou um sentido diferente.

Não era apenas crueldade.

Era tentativa de transferir um problema.

Talvez até uma culpa.

Nash se agachou perto de Tomas.

— O que eles estavam procurando?

Lena apertou o retalho na mão.

Tomas respondeu antes dela.

— Um caderno.

Nash esperou.

Tomas continuou.

Ele e Lena tinham encontrado, dias antes, um cavalo solto perto de uma área de passagem.

Preso à sela havia um pequeno caderno embrulhado em couro.

Não sabiam quem era o dono.

Dentro, havia anotações de entregas, nomes abreviados, quantidades e marcas de datas.

Nada daquilo significava muito para Lena até Hank e os outros aparecerem procurando exatamente aquele objeto.

Eles não perguntaram se os irmãos tinham encontrado um cavalo.

Perguntaram pelo caderno.

Esse detalhe revelara que sabiam muito mais do que deveriam.

Lena e Tomas fugiram.

Durante a perseguição, esconderam o caderno.

Só que fizeram isso antes de se separar.

Hank tinha capturado Lena acreditando que ela ainda o carregava.

Nash olhou ao redor.

— Onde está?

Lena apontou para o saco rasgado.

— Não está na bolsa.

Nash percebeu o cuidado da resposta.

— Eu sei.

Ela respirou fundo.

— Está perto daqui.

Tomas protestou imediatamente.

Lena respondeu com firmeza.

Os dois discutiram por alguns segundos.

Nash se afastou, deliberadamente, para mostrar que não tentaria ouvir cada palavra.

Foi Tomas quem o chamou de volta.

— Se eles voltarem, precisamos sair antes.

Nash concordou.

— Então não vamos buscar caderno nenhum agora.

Lena franziu a testa.

— Você não quer ver?

— Quero tirar vocês daqui.

— Aquilo pode provar por que fizeram isso.

— E pode fazer vocês morrerem tentando buscar.

Lena fitou a passagem estreita.

Nash sabia que ela tinha razão sobre uma coisa: enquanto Hank acreditasse que o caderno continuava por ali, voltaria.

Mas Lena também precisava entender que possuir a verdade não obrigava ninguém a arriscar a vida imediatamente para exibi-la.

— Primeiro seu irmão — Nash disse. — Depois o resto.

Dessa vez, ela concordou.

Eles improvisaram apoio para Tomas e começaram a retornar.

Foi quando ouviram cavalos.

Três.

Nash reconheceu o ritmo antes de ver qualquer rosto.

Hank, Silas e Charlie tinham voltado.

A terceira reversão chegava mais cedo do que ele esperava.

Nash conduziu Lena e Tomas para trás de uma formação de pedra.

Não havia espaço para uma fuga rápida com Tomas machucado.

Também não havia motivo para fingir que conseguiriam vencer três homens num confronto aberto.

Nash pensou no terreno.

Conhecia aquela passagem melhor do que eles.

Foi assim que os salvara meses antes.

A antiga dívida que Hank dizia pagar tinha nascido exatamente ali.

Agora o mesmo conhecimento poderia servir para impedir que a crueldade dele continuasse.

Nash entregou as rédeas de seu cavalo a Lena.

— Há uma saída estreita depois daquela curva. Leve seu irmão.

Ela recusou com a cabeça.

— E você?

— Vou fazer eles seguirem a trilha errada.

— Não.

Nash quase respondeu que era a única forma.

Parou antes.

Outra vez, estava prestes a decidir por ela.

— Qual é a sua ideia?

Lena apontou para o retalho.

Depois para o saco rasgado.

— Eles pensam que eu estava com o caderno.

Nash entendeu.

Se Hank ainda acreditasse nisso, não procuraria Tomas.

Procuraria Lena.

Era perigoso.

Mas ela não propunha se entregar.

Propunha controlar a mentira que os homens já tinham escolhido acreditar.

Nash pegou o saco vazio e amarrou-o à sela do próprio cavalo de maneira visível.

Depois conduziu o animal por uma trilha lateral, deixando marcas claras em direção ao norte.

Mais adiante, soltou-o num trecho aberto que levaria horas para contornar.

Hank veria as pegadas e o saco.

Se estivesse tão desesperado pelo caderno quanto Lena dizia, seguiria.

Funcionou.

Os três homens chegaram à bifurcação.

Nash, escondido entre as pedras com Lena e Tomas, ouviu Charlie dizer que o cavalo de Carter tinha passado por ali.

Silas encontrou uma fibra do saco presa num arbusto.

Hank não hesitou.

Mandou os outros seguirem.

Durante alguns minutos, o som dos cascos se afastou.

Lena olhou para Nash.

— Agora.

Eles saíram pela passagem secundária.

Só depois de alcançarem terreno mais seguro Tomas revelou o detalhe que nem Lena conhecia.

Ele não tinha escondido o caderno inteiro.

Antes da captura da irmã, arrancara uma página.

Lena parou.

— Por quê?

— Porque se pegassem o caderno, ainda teríamos alguma coisa.

Ele puxou de dentro da camisa uma folha dobrada várias vezes.

Nash não tocou nela.

Tomas abriu o papel sobre uma pedra.

As anotações eram simples, mas um nome aparecia completo no fim de uma linha.

Hank Crow.

Ao lado havia a descrição de uma entrega e uma data.

Não provava sozinho tudo o que os irmãos suspeitavam.

Mas provava uma coisa material: Hank tinha ligação direta com o caderno que fingia nunca ter visto.

E isso explicava por que mentira sobre o lugar onde encontrara Lena.

A quarta reversão não era que os homens tivessem medo do caderno.

Era que Hank já estava dentro da história registrada nele.

Nash compreendeu que confrontá-lo com a página naquele instante seria um erro.

Hank ainda tinha dois homens ao lado e nenhum motivo para admitir nada.

A prova só teria valor se sobrevivesse aos próximos minutos.

Por isso Nash tomou uma decisão que lhe custava mais do que uma briga.

Em vez de voltar para buscar seu cavalo ou defender o rancho, escolheu conduzir Lena e Tomas para longe da rota principal.

Seu patrimônio podia esperar.

Eles não.

Horas depois, quando retornaram por outra direção, viram fumaça fina perto da propriedade.

Nash apertou o passo.

Hank tinha chegado antes.

Não havia incendiado a casa, mas tinha revirado o galpão e quebrado a porta do depósito procurando alguma coisa.

Seu cavalo estava de volta perto da cerca, suado e sem o saco.

Hank encontrara a isca.

E descobrira que estava vazia.

Na porta da casa, havia uma única corda cortada jogada no chão.

A mesma que tinha prendido Lena.

Hank havia voltado ao rancho e deixado um recado sem palavras.

Ele sabia que Nash escolhera um lado.

Tomas olhou para a porta danificada.

— Agora ele vai voltar.

Nash respondeu:

— Sim.

Lena segurava a página dobrada.

— Então precisamos do resto.

Dessa vez, Nash não discutiu.

A situação tinha mudado.

Enquanto o caderno permanecesse escondido perto do cânion, Hank continuaria procurando e usando qualquer pessoa próxima como pressão.

Buscar o objeto já não era curiosidade.

Era retirar dele o único motivo para controlar aquela área.

Mas havia uma condição.

— Você decide onde ele vai depois — Nash disse a Lena. — Não eu.

Ela assentiu.

Na manhã seguinte, os três voltaram à passagem por uma rota diferente.

Tomas ficou num ponto protegido enquanto Nash acompanhou Lena até uma fenda entre duas paredes de pedra.

Ela removeu três pedras soltas.

Atrás delas havia um embrulho de couro.

Pequeno.

Gasto.

O tipo de objeto pelo qual ninguém imaginaria três homens perseguindo alguém.

Lena o segurou por alguns segundos.

Depois o entregou a Nash.

Foi a primeira vez que colocou voluntariamente algo importante nas mãos dele.

Não porque ele tivesse conquistado poder sobre ela.

Porque, depois de tudo, ela escolhera confiar nele.

Nash abriu apenas o suficiente para confirmar que era o mesmo tipo de registro descrito por Tomas.

Então devolveu.

— É seu até você decidir o contrário.

Lena pareceu surpresa novamente.

— Você não quer saber o que tem aqui?

— Quero.

— Então por que devolveu?

Nash olhou para os pulsos dela, agora sem cordas.

— Porque querer saber não me dá o direito de tomar.

Ela guardou o caderno.

Foi essa escolha, e não a página com o nome de Hank, que determinou o final da história.

Quando Hank reapareceu no rancho naquela tarde, encontrou Nash esperando perto do poço.

Silas e Charlie estavam com ele, mas os dois já não riam.

Hank desmontou.

— Você tornou isso mais difícil do que precisava, Carter.

Nash não respondeu à provocação.

— Você mentiu sobre onde encontrou Lena.

Hank abriu os braços.

— Lena? Então agora ela tem nome para você?

Nash manteve os olhos nele.

— Você sabia do caderno antes de capturá-la.

A reação de Silas foi pequena, mas suficiente.

Ele olhou para Hank.

Hank percebeu.

— Não sabe do que está falando.

Nash tirou do bolso apenas uma coisa.

Não o caderno.

A página que Tomas lhe permitira carregar.

Ele não a entregou.

Apenas mostrou o nome de Hank no papel.

Hank deu um passo à frente.

— Isso é meu.

Silas virou a cabeça imediatamente.

Charlie também.

Nash não precisou acusá-lo.

Hank tinha acabado de reconhecer como sua uma página de um registro que, segundos antes, afirmava desconhecer.

A tentativa de recuperar o controle produziu a própria contradição.

Silas foi o primeiro a se afastar.

— Você disse que era só uma bolsa.

Hank virou para ele.

— Cala a boca.

— Você disse que a garota tinha roubado de você.

Charlie olhou de um para outro.

A aliança entre os três começou a rachar não por coragem repentina, mas porque cada um percebeu que Hank havia contado versões diferentes.

Nash não tentou transformar Silas ou Charlie em homens melhores do que eram.

Eles tinham participado da captura.

Tinham rido.

Tinham abandonado Lena amarrada na poeira.

Nada apagava isso.

Mas naquele momento já não estavam dispostos a assumir todas as consequências de uma mentira que Hank lhes vendera como simples cobrança.

Hank percebeu que perdera o controle da conversa.

Então tentou comprar outra coisa.

— Me dê o caderno e acabou.

Nash respondeu:

— Não está comigo.

Hank sorriu de lado.

— Então está com ela.

A voz de Lena veio da varanda.

— Está.

Hank se virou.

Ela estava de pé, sem cordas, sem ninguém segurando seu braço e sem Nash colocado à frente dela como dono da situação.

Tomas permanecia mais atrás, apoiado numa bengala improvisada.

Lena segurava o embrulho de couro.

Hank avançou um passo.

Nash não se moveu para falar por ela.

Lena abriu o caderno.

— Você queria isso porque seu nome está aqui.

Hank respondeu:

— Você não sabe o que essas anotações significam.

— Talvez não.

Ela fechou o caderno.

— Mas sei o que você fez para tentar pegá-lo.

Essa era a diferença que Hank não conseguia apagar.

Mesmo que as páginas exigissem explicação, a perseguição, a captura, as cordas e as mentiras tinham acontecido diante de pessoas que participaram delas.

Silas sabia onde Lena fora capturada.

Charlie sabia que Hank perguntara pelo caderno antes de levá-la ao rancho.

E Hank acabara de reconhecer a página.

A verdade central não dependia mais de uma revelação milagrosa.

Dependia das próprias escolhas que ele fizera para escondê-la.

Hank olhou para Silas.

— Pegue o caderno.

Silas não se mexeu.

— Você ouviu.

Silas tirou as rédeas do cavalo de cima da cerca.

— Ouvi coisa demais de você.

Charlie hesitou por alguns segundos e fez o mesmo.

Nenhum dos dois pediu desculpas.

Nenhum mereceu perdão automático.

Mas recusaram a ordem.

Isso foi suficiente para mudar o equilíbrio daquela tarde.

Hank ficou sozinho diante do poço onde, um dia antes, tinha chamado uma mulher amarrada de pagamento.

Ele ainda tentou ameaçar Nash.

Disse que voltaria.

Disse que aquilo não terminaria ali.

Nash respondeu apenas:

— Então você vai encontrar as mesmas pessoas, mas não a mesma situação.

Hank montou e partiu.

Silas e Charlie seguiram em outra direção.

Antes de ir, Charlie deixou no chão uma tira de couro que pertencera às amarras de Lena.

Talvez fosse culpa.

Talvez medo.

Lena não perguntou.

A consequência prática veio depois.

O caderno e a página foram preservados, e os acontecimentos daquele dia deixaram de ser uma história que Hank podia controlar sozinho.

Silas e Charlie carregavam conhecimento próprio sobre a captura e sobre as ordens que receberam.

Hank já não podia aparecer no rancho fingindo que tudo havia sido uma brincadeira cruel entre homens.

O custo também permaneceu.

A porta do depósito de Nash continuou quebrada por vários dias.

Algumas provisões tinham sido espalhadas e parte do trabalho do rancho foi perdida.

Ele não recuperou aquilo por meio de uma recompensa repentina.

Escolher ajudar Lena e Tomas teve preço.

Nash aceitou esse preço porque fora uma escolha dele.

Para Lena, a ferida mais difícil não estava nos pulsos.

Durante dias, ela ainda observava a porta antes de entrar em qualquer cômodo.

Ainda mantinha distância quando alguém pegava uma faca.

Ainda acordava ao ouvir cavalos se aproximando.

Nash não tentava convencê-la de que estava segura com discursos.

Mostrava.

Deixava as portas destrancadas quando ela estava por perto.

Perguntava antes de tocar em qualquer objeto que fosse dela.

Nunca pegava o caderno sem permissão.

Tomas, conforme o tornozelo melhorava, começou a ajudar em tarefas leves.

Lena decidiu quando partiria.

Nash não pediu que ficassem.

Também não insinuou que lhe deviam algo.

Essa talvez tenha sido a parte que mais demorou para ela acreditar.

Na manhã em que os irmãos se prepararam para seguir viagem, Lena foi até o velho poço.

A faca de Nash estava sobre a borda de madeira.

A mesma lâmina que ele colocara na terra quando ela ainda estava amarrada.

Ela a pegou.

Nash viu de longe e não disse nada.

Lena caminhou até ele com a faca na mão.

Por um segundo, a imagem lembrou o primeiro encontro: desconfiança, distância e um objeto entre os dois.

Mas agora nenhuma corda apertava seus pulsos.

Ela estendeu o cabo para Nash.

— Você deixou isso no chão para eu escolher.

Ele recebeu a faca.

— Funcionou?

Lena olhou para o caminho aberto diante do rancho.

— Não naquele momento.

Nash esperou.

Ela continuou:

— Mas foi por isso que eu fiquei tempo suficiente para descobrir.

Então colocou na mão dele o pequeno retalho rasgado da bolsa.

Não como pagamento.

Não como dívida.

Como lembrança de uma escolha feita livremente.

Nash guardou o tecido na bolsa da sela, ao lado da faca.

Meses antes, três homens tinham insistido que lhe deviam um cavalo.

Depois tentaram transformar uma pessoa em moeda para encerrar essa obrigação.

No fim, Nash não recebeu cavalo algum.

Recebeu algo que nunca teria aceitado cobrar: confiança.

E quando Lena e Tomas partiram pelo caminho ao sul, ninguém foi levado, ninguém foi entregue e ninguém pertenceu a ninguém.

A velha corda continuou perto do poço por algum tempo, mas Nash cortou suas partes aproveitáveis e usou uma delas para prender a tampa de um balde que o vento sempre derrubava.

Aquilo que tinha servido para controlar uma pessoa virou apenas um pedaço comum de corda, incapaz de decidir o destino de alguém.

Era assim que aquela história terminava.

Não com uma dívida paga.

Com uma dívida recusada.

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