A porta voltou a sacudir sob outra pancada, e Tomás apertou o pano contra o braço de Jacinta enquanto Inés recuava para perto do fogão, certa de que quem estivesse do lado de fora não poderia ser Mateo.
Jacinta sentia o sangue quente atravessar o tecido, mas o medo nos olhos do menino doía mais do que o corte.
Tomás já tinha visto uma mulher cair naquele mesmo cômodo e não se levantar outra vez.

Ela não permitiria que ele acreditasse que a história estava se repetindo.
— Não tire a mão — ordenou Jacinta. — Mesmo se baterem de novo.
Bateram.
Duas pancadas curtas, uma longa.
Então veio uma voz abafada pelo vento.
— Mateo! Abra!
Jacinta ergueu o rosto.
Não era Mateo.
Também não era uma voz conhecida.
Inés se aproximou da janela, mas Jacinta a chamou imediatamente.
— Longe do vidro.
A menina obedeceu sem discutir, algo que uma semana antes pareceria impossível.
— Quem está aí? — Jacinta gritou.
— Sou Joaquín, da equipe da madeira! Mateo mandou avisar!
Jacinta fechou os olhos por um instante.
Havia ouvido Mateo mencionar Joaquín duas ou três vezes, mas nunca o tinha visto.
Isso não bastava para abrir uma porta no meio de uma tempestade.
— Se Mateo mandou você, diga onde ele deixou o machado pequeno hoje de manhã.
Houve uma pausa do lado de fora.
— Atrás do barril, porque Tomás estava usando para cortar graveto e ele ficou furioso.
Tomás levantou a cabeça.
— Foi isso mesmo.
Jacinta apontou para Inés.
— Abra só a trava de cima e fique atrás da porta.
A rajada quase arrancou a madeira das mãos da menina quando Joaquín entrou coberto de neve, com o chapéu preso junto ao peito e o rosto avermelhado pelo frio.
Ele viu Jacinta caída e parou.
— Meu Deus.
— Não gaste tempo com Deus agora — ela respondeu. — Arrume uma faixa limpa e veja se consegue acender outra lamparina.
Joaquín se moveu.
Rápido.
Foi então que contou o que tinha acontecido.
A tempestade descera pela serra antes do previsto.
Mateo havia tentado voltar com a junta de animais, mas um pinheiro caíra sobre a passagem estreita entre duas elevações.
Ele estava vivo.
Estava tentando encontrar outro caminho.
Antes de se separar dos trabalhadores, mandara Joaquín seguir até a cabana porque sabia que Jacinta e as crianças estavam sozinhas.
— Ele disse que você não ia esperar ajuda se achasse que podia resolver sozinha — explicou Joaquín.
Apesar da dor, Jacinta soltou um ruído entre irritação e riso.
— Ele aprende rápido.
Joaquín examinou a manga rasgada.
O corte era comprido, mas a pressão feita por Tomás tinha reduzido o sangramento.
— O menino fez certo.
Tomás não respondeu.
Continuava com as duas mãos sobre o pano.
Jacinta percebeu que os dedos dele tremiam.
— Tomás.
Ele olhou para ela.
— Você me manteve aqui.
— A mamãe também sangrou.
A frase saiu quase sem voz.
Inés virou o rosto.
Até aquele momento, os gêmeos nunca tinham contado a Jacinta exatamente o que lembravam da morte da mãe.
Ela sabia apenas que a febre havia piorado durante o inverno e que Mateo não conseguira trazê-la até atendimento a tempo.
Tomás apertou a boca.
— Ela disse que estava bem. Depois parou de falar.
Jacinta sentiu o medo antigo do menino se encaixar em tudo que antes parecera simples rebeldia.
As botas cheias de água.
A massa jogada fora.
As respostas atravessadas.
Não eram apenas provocações contra uma estranha.
Eram testes.
Eles queriam saber quanto tempo ela demoraria para desistir deles.
Ou desaparecer.
Ou morrer.
Jacinta estendeu a mão que ainda conseguia mover e tocou o pulso de Tomás.
— Escute bem. Eu estou falando. Estou reclamando. E ainda vou fazer você buscar pedras quando essa neve acabar.
O menino respirou fundo pela primeira vez desde que ela entrara na cabana.
— Então você não vai morrer?
— Não hoje.
Inés se ajoelhou ao lado dele.
— Nem amanhã?
Jacinta quase respondeu de imediato, mas não quis oferecer uma promessa que ninguém podia garantir.
— Amanhã a gente resolve amanhã.
Joaquín improvisou uma faixa firme e disse que o ferimento precisaria ser limpo e fechado assim que fosse possível descer a serra.
Não havia como viajar naquela noite.
O caminho estava desaparecendo sob a neve.
Por isso, o primeiro problema não era o braço de Jacinta.
Era manter a cabana aquecida.
O galpão de lenha tinha sido parcialmente atingido pelo mesmo tronco que rasgara o telhado, e quase tudo que restava estava coberto de neve.
Joaquín conseguiu trazer alguns pedaços secos que estavam protegidos no fundo.
Poucos.
Jacinta fez as contas olhando para o fogão.
— Não alimentamos o fogo como antes. Fechamos o quarto dos fundos e ficamos todos aqui.
Inés franziu a testa.
— Mateo disse que não podemos dormir perto demais do fogão.
— Seu pai está certo. Por isso ninguém vai dormir encostado nele.
A menina assentiu.
A discussão estava encerrada.
Horas depois, quando a tempestade parecia ainda mais forte, os quatro estavam no mesmo cômodo.
Joaquín dormia sentado perto da porta.
Tomás e Inés tinham se enrolado em cobertores no chão.
Jacinta permanecia desperta, com o braço latejando.
Foi Inés quem percebeu primeiro.
— Ele chegou.
Jacinta não ouviu nada.
Então viu a menina se levantar e colocar a mão sobre a madeira.
Do lado de fora, entre uma rajada e outra, veio um assobio curto.
Tomás acordou de imediato.
— É ele.
Quando Joaquín abriu, Mateo entrou praticamente carregado pelo vento.
A barba estava coberta de gelo e uma das pernas arrastava de leve, mas ele estava em pé.
Seus olhos passaram por Joaquín, pelas crianças e finalmente encontraram Jacinta.
A manga cortada.
A faixa improvisada.
O pano manchado.
Ele parou diante dela.
— O que aconteceu?
— Seu telhado tentou me matar.
Mateo se abaixou.
— Jacinta.
Ela nunca o tinha ouvido dizer seu nome daquele jeito.
Sem ironia.
Sem dureza.
Sem a distância que os dois tinham mantido desde Creel.
— Estou viva — disse ela. — Seus filhos também. Essa era a prioridade.
Mateo olhou para Tomás.
— Foi ele quem segurou o ferimento — acrescentou Jacinta. — Não soltou nem quando achou que eu ia morrer.
O rosto de Mateo mudou.
Ele puxou o filho para perto.
Tomás resistiu por meio segundo e depois se agarrou à jaqueta do pai.
Inés entrou no abraço logo depois.
Jacinta desviou o olhar.
Aquela parte não era dela.
Pelo menos foi o que pensou.
Até Inés se soltar do pai, atravessar o cômodo e puxar uma ponta do cobertor sobre as pernas de Jacinta.
— Você também está com frio.
Na manhã seguinte, a tempestade diminuiu o suficiente para revelar o estrago.
Parte do telhado estava amassada.
O abrigo da lenha tinha perdido uma lateral.
A passagem principal continuava bloqueada.
Mateo e Joaquín precisariam abrir caminho antes que Jacinta pudesse descer para cuidar do braço.
Ela tentou se levantar para preparar o café.
Mateo colocou a mão sobre a panela antes dela.
— Sente.
— Eu consigo cozinhar com uma mão.
— Eu também.
Tomás soltou um pequeno riso.
Jacinta encarou Mateo.
— Você sabe fazer tortillas?
— Sei fazer alguma coisa redonda que pode ser comida com pouca luz.
Até Inés riu.
Foi a primeira manhã em que os quatro dividiram uma mesa sem parecerem pessoas colocadas juntas por acidente.
Mas a mudança verdadeira apareceu dois dias depois.
Quando o caminho finalmente ficou transitável, Mateo levou Jacinta até Creel para que o ferimento fosse tratado corretamente.
Ela entrou no povoado com o mesmo baú ainda guardado na carroça, porque Mateo insistira em levá-lo caso ela decidisse não retornar à cabana.
O acordo entre eles continuava de pé.
Quarto próprio.
Parte dos ganhos.
Passagem paga quando o inverno acabasse.
Nenhuma obrigação além daquela que tinham combinado.
Jacinta respeitava isso.
Porém, perto da estação, ela viu alguém que não esperava encontrar.
Esteban Valdés.
Ele estava diante de um estabelecimento, conversando com dois comerciantes, exatamente como o homem que se preocupava tanto em parecer importante provavelmente gostava de ser visto.
Quando reconheceu Jacinta, seus olhos desceram para a faixa no braço e depois para Mateo.
— Então era verdade — disse Esteban. — Você foi morar com o lenhador.
Mateo parou, mas Jacinta tocou a lateral da carroça.
— Eu falo por mim.
Ele recuou.
Esteban observou aquilo.
— Parece que encontrou trabalho adequado.
Jacinta desmontou com cuidado.
— Encontrei.
— E não se arrependeu de ter vindo tão longe por nada?
A pergunta atingiu o ponto exato que ainda doía.
Ela havia atravessado uma enorme distância acreditando em cartas que prometiam outra vida.
Havia gastado todas as economias.
Tinha sido rejeitada diante de estranhos como se fosse mercadoria de qualidade inferior.
Durante semanas, em algum canto da mente, ainda carregara vergonha por ter acreditado.
Agora percebeu que aquela vergonha nunca pertencera a ela.
— Eu vim por uma coisa — respondeu. — Encontrei outra.
Esteban soltou uma risada curta.
— Uma cabana quebrada e duas crianças difíceis?
Jacinta olhou para Mateo.
Depois para os gêmeos, que tinham insistido em acompanhá-los e estavam sentados atrás, dividindo um cobertor.
Tomás observava Esteban com a testa fechada.
Inés segurava a borda da carroça.
— Entre outras coisas.
Esteban perdeu o interesse assim que percebeu que Jacinta não lhe daria uma cena.
Virou-se novamente para os comerciantes.
Ela também se virou.
E foi embora antes dele.
Na volta à serra, Tomás perguntou:
— Foi aquele homem que não quis você?
Mateo lançou um olhar rápido para Jacinta, como se disposto a impedir a conversa se ela desejasse.
Ela respondeu.
— Foi.
— Ele é burro.
— Tomás — disse Mateo.
— Mas é.
Jacinta segurou o riso.
— Talvez. Mas isso não é problema nosso.
Inés ficou pensativa.
— Se ele tivesse querido você, você não estaria com a gente.
Dessa vez ninguém respondeu imediatamente.
Jacinta olhou para as árvores passando dos dois lados da trilha.
— Não estaria.
A menina pareceu satisfeita com a conclusão.
O inverno avançou.
A rotina voltou com pequenas alterações.
Mateo começou a consultar Jacinta antes de decidir quanto mantimento comprar ou quanto dinheiro separar para reparos.
Ela insistiu que sua parte dos ganhos fosse registrada com clareza.
Ele não se ofendeu.
Pelo contrário.
Passou a deixar as contas sobre a mesa nas noites de sábado e os dois conferiam tudo juntos.
Tomás recebeu a função de cuidar da lenha seca.
Inés ficou responsável por verificar farinha e feijão antes que acabassem.
A casa começou a funcionar como um lugar onde cada pessoa sabia o que precisava fazer.
Isso reduziu as brigas.
Não eliminou.
Certa manhã, Tomás escondeu uma das luvas de Inés porque ela havia contado a Mateo que ele tentara descer uma encosta sobre uma tábua.
Jacinta fez os dois passarem quase uma hora separando gravetos por tamanho.
No final, estavam rindo.
Em outra ocasião, Inés queimou três tortillas porque ficou olhando a neve cair.
Jacinta comeu a mais preta.
— Essa é minha — disse.
— Está horrível — respondeu Inés.
— Então da próxima vez você presta atenção.
Mateo assistia a essas cenas quase sempre em silêncio.
Até que, numa noite, depois que as crianças foram dormir, falou:
— Eles estão diferentes.
Jacinta continuou remendando uma camisa.
— Crianças mudam.
— Não assim.
Ela levantou os olhos.
Mateo estava sentado do outro lado da mesa.
— Depois que Clara morreu, eu tentei fazer tudo como antes — disse ele. — Comida na mesma hora. Mesmas tarefas. Mesmas regras. Achei que, se a casa continuasse igual, eles ficariam bem.
Jacinta colocou a agulha sobre a mesa.
— A casa não podia continuar igual.
— Eu sei agora.
Mateo esfregou as mãos.
— Tomás ficou meses sem entrar no quarto onde ela morreu. Inés não deixava nenhuma mulher pentear o cabelo dela. Nem a irmã de Clara.
Jacinta lembrou da menina cerrando os punhos no primeiro dia.
“Não queremos outra mãe.”
Finalmente compreendeu o tamanho da defesa escondida naquela frase.
— Eu não vim substituir ninguém — disse.
— Eu sei.
Mateo olhou para a porta, depois novamente para ela.
— Talvez tenha sido por isso que eles deixaram você entrar.
A palavra ficou entre os dois.
Entrar.
Não apenas na cabana.
Jacinta voltou a costurar.
— Sua camisa continua rasgada.
Mateo entendeu que a conversa terminara.
Não insistiu.
Quando o inverno começou a perder força, uma questão diferente surgiu.
O acordo tinha prazo.
Quando a neve desse lugar ao barro e as estradas voltassem a permitir viagem regular, Jacinta poderia partir.
Mateo pagaria a passagem conforme prometido.
Nenhum dos dois mencionava isso.
Os gêmeos, porém, sabiam contar os dias muito melhor do que os adultos imaginavam.
Uma tarde, Jacinta encontrou Tomás sentado sobre o baú dela.
O mesmo baú deixado na estação meses antes.
— Saia daí.
Ele não se mexeu.
— Você vai usar isso quando for embora?
Jacinta parou.
— Vou usar se for embora.
— Então eu posso quebrar.
— Não pode.
— Posso tirar uma roda da carroça.
— Também não pode.
Tomás cruzou os braços.
— Então diga que fica.
Jacinta se ajoelhou diante dele.
— Seu pai me prometeu que eu poderia escolher.
— Eu sei.
— E se eu disser que fico só porque você está bravo, deixa de ser escolha.
O menino olhou para o chão.
— Eu não quero outra mãe.
Jacinta esperou.
— Mas também não quero que você vá.
Ali estava a diferença.
Ele não estava pedindo substituição.
Estava pedindo permanência.
Jacinta beijou a testa dele e levantou.
— Não mexa no meu baú.
— Isso não é resposta.
— Você está ficando inteligente demais.
Naquela noite, ela abriu o baú pela primeira vez em meses.
Lá estavam os cobertores, os três livros e a chapa de ferro para tortillas que um dia ameaçara usar para quebrar o nariz de Mateo.
No fundo havia também as cartas de Esteban.
Jacinta pegou o maço.
Leu apenas a primeira linha da primeira carta.
Depois colocou tudo no fogo.
Não por vingança.
Não porque quisesse apagar o que acontecera.
Mas porque já não precisava transportar aquelas promessas de uma casa para outra.
Mateo entrou quando a última folha começava a se dobrar no calor.
Ele não perguntou o que era.
Seu olhar foi para o baú aberto.
— A estrada deve ficar boa em duas semanas — disse.
Jacinta assentiu.
— Joaquín falou a mesma coisa.
— Eu tenho o dinheiro da passagem separado.
— Eu sei.
Mateo respirou fundo.
— Não vou voltar atrás no acordo.
— Ainda bem.
— Mesmo se eu preferisse que você ficasse.
Jacinta ergueu os olhos.
Mateo permaneceu onde estava.
Não se aproximou.
Não tentou transformar hospitalidade em dívida ou cuidado em obrigação.
Era justamente aquilo que distinguia sua proposta de tudo que Jacinta temera quando subira naquela carroça em Creel.
— Por quê? — ela perguntou.
Ele demorou a responder.
— Porque a casa funciona melhor com você aqui.
Jacinta arqueou uma sobrancelha.
— Péssimo começo.
Mateo quase sorriu.
— Porque Tomás conversa. Porque Inés voltou a cantar quando acha que ninguém escuta. Porque eu não sou mais o único adulto tentando adivinhar tudo. Porque você discorda de mim quando acha que estou errado.
— Isso parece acontecer bastante.
— Bastante.
Ele olhou para a chapa dentro do baú.
— E porque gosto de saber que você está aqui.
Dessa vez Jacinta não encontrou uma resposta rápida.
Mateo continuou:
— Não estou pedindo que seja mãe deles. Nem que case comigo. Nem que me deva nada. Estou perguntando se quer renovar o acordo quando o inverno acabar.
— Como parceira?
— Como parceira.
Jacinta fechou o baú.
— Minha parte aumenta.
Mateo soltou uma risada.
— Quanto?
Ela disse o valor.
Ele reclamou.
Ela explicou quanto trabalho fazia.
Ele alegou que fornecia moradia.
Ela lembrou que também administrava mantimentos e reparos.
A negociação durou quase meia hora.
Quando terminou, ambos estavam satisfeitos o suficiente para fingir que tinham perdido.
Na manhã seguinte, Mateo colocou a nova divisão dos ganhos por escrito.
Jacinta leu duas vezes.
Depois assinou.
Tomás viu o papel e perguntou imediatamente:
— Isso quer dizer que você fica?
— Quer dizer que fico até o próximo acordo.
O menino abriu a boca para protestar.
Inés foi mais rápida.
Ela correu até o quarto, voltou com uma pequena tira de tecido e amarrou no puxador do baú de Jacinta.
— Para quê isso? — perguntou Jacinta.
— Para saber que ele mora aqui também.
— O baú?
— É.
Jacinta passou os dedos pela tira de tecido.
Meses antes, aquele baú tinha sido tudo que ela possuía numa plataforma onde um homem a deixara para trás.
Agora continuava sendo dela.
A diferença era que não precisava mais estar pronto para partir.
Na primavera, Mateo reparou o telhado.
Tomás carregou os pregos.
Inés separou as ferramentas.
Jacinta ficou no chão, recusando-se a subir até que o braço recuperasse totalmente a força.
Quando o trabalho terminou, Mateo desceu e encontrou a velha ponta enferrujada que atravessara a manga dela durante a tempestade.
Ele fez menção de jogá-la fora.
— Espere — disse Jacinta.
Ela pegou o metal, examinou e entregou a Tomás.
— Leve para a caixa de sucata.
O menino pareceu surpreso.
— Você não quer guardar?
— Para quê?
— Porque foi quando você quase morreu.
Jacinta olhou para ele.
— Não. Foi quando você descobriu que sabia o que fazer.
Tomás segurou o pedaço de metal com mais cuidado.
Depois o levou até a caixa.
Naquela noite, enquanto Jacinta preparava tortillas, Inés apareceu com a chapa de ferro nas mãos.
— Posso colocar no fogo?
— Com cuidado.
Mateo entrou trazendo lenha e parou ao vê-las.
— Essa é a famosa arma?
Jacinta olhou para a chapa.
A mesma que havia citado na primeira noite, quando ainda acreditava que precisava deixar claro a qualquer homem que não seria tratada como alguém sem escolha.
— Era — respondeu.
— Era?
Ela colocou a primeira tortilla sobre o ferro quente.
Tomás já arrumava quatro pratos sobre a mesa.
Inés buscava o feijão.
Mateo ficou ao lado da porta, esperando uma explicação.
Jacinta virou a tortilla.
— Agora serve para outra coisa.
E foi assim que o objeto que ela levara para uma vida prometida por um estranho acabou ficando na casa que ninguém lhe prometera.
Não como lembrança da rejeição na estação.
Nem como ameaça.
Mas como parte comum de uma cozinha onde sua presença deixara de ser favor, emprego temporário ou substituição de alguém que se fora.
Era uma escolha renovada todos os dias.
E, naquela casa entre os pinheiros, pela primeira vez desde que descera do trem em Creel, Jacinta não precisava convencer ninguém de que era digna de ficar.